Uma das primeiras coisas que a guardense Mariana Nogueira percebeu quando chegou a Copenhaga, em 2024, foi que quase toda a gente conhecia o pastel de nata, mas raramente o encontrava à venda. Entre referências constantes ao doce português e a ausência nas vitrines da cidade, surgiu a oportunidade que viria a transformar num negócio que, por estes dias, vende centenas de pastéis aos dinamarqueses: o NaTuga.
Apesar de, em setembro desse ano, ter viagem marcada para a Bélgica, onde iria estudar engenharia, ouviu vários conselhos para adiar o projeto. Ainda assim, decidiu avançar para testar o mercado. “Para mim fazia sentido começar para perceber se ia ou não funcionar.”
Os primeiros passos foram dados de forma improvisada. Mariana produzia os pastéis na secretária da residência de estudantes, longe do centro de Copenhaga. Em apenas três semanas, antes de partir para a Bélgica, vendeu cerca de 500 unidades, um sinal mais do que positivo.
Quando regressou à Dinamarca, em fevereiro de 2025, encontrou um cenário diferente. “Houve um boom muito grande”, conta. Perante a procura crescente, decidiu abrir um espaço físico. “Já não tinha capacidade para fazer tudo sozinha.” Assim nasceu, oficialmente, a NaTuga, um ano depois do início da ideia.
O nome resulta da junção de “nata” com “tuga”. “Faz todo o sentido. Nata, Tuga, porque quem é português diz sempre que é um bom tuga”, explica.
No início, o processo de venda era exigente. Preparava os pastéis, colocava-os numa caixa térmica e fazia cerca de uma hora de deslocações entre autocarro, comboio e bicicleta até chegar às zonas mais movimentadas da cidade. Usava um carrinho preto alugado, com o nome NaTuga escrito à mão e um guarda-chuva amarelo. “No início foi difícil, ninguém me conhecia”, recorda. Cada pastel custava dois euros.

Hoje, a operação é muito diferente. Mariana trabalha com uma cozinha profissional equipada com fornos industriais, onde consegue produzir cerca de 200 pasteis por hora. No espaço físico, localizado em Roskilde, perto da estação, vende entre 500 e 600 unidades por semana, agora a quatro euros cada. “Achei que as pessoas não iam pagar este valor, mas a procura tem sido grande”, diz.
A estratégia mantém-se focada no produto tradicional, numa receita que aprendeu com um chef lisboeta. “Para mim, pastel de nata só há um. Só vendo o original.”
Natural da Guarda, Mariana saiu de Portugal aos 20 anos. “Queria estudar e não falava inglês. Precisava de sair da minha zona de conforto”, explica. Escolheu a Dinamarca depois de ouvir boas referências, onde concluiu a licenciatura em Estudos Internacionais e Gestão Internacional na Universidade de Roskilde e um mestrado em Gestão de Empresas, dividido entre Roskilde e a Copenhagen Business School. Atualmente, divide-se entre o negócio e novos projetos. “É um mix. Estou a desenvolver os meus negócios, que é o que mais gosto.”
Além da NaTuga, está a trabalhar numa plataforma tecnológica. “Comecei com três cofundadores e estamos a desenvolver uma plataforma para grandes empresas chamada Skill Mashing App.”
Para já, regressar a Portugal não está nos planos. “Gosto muito de Portugal e da Guarda, mas também penso na minha qualidade de vida”, admite. “O mais difícil é estar longe da família, mas só volto quando tiver mais estabilidade financeira.”
Essa estabilidade, acredita, é mais fácil de alcançar na Dinamarca. “Copenhaga dá-me um conforto e uma facilidade para trabalhar em várias áreas que não consigo ver em Portugal”, conclui.

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