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Alcina é uma das últimas queijeiras artesanais e guarda os segredos do queijo da Serra

Em Videmonte, produz um dos melhores exemplares do produto, com leite fresco das suas ovelhas e a flor do cardo que produz e colhe na quinta.

Houve um tempo em que Alcina Correia olhava para a profissão com relutância. Filha de pastores, cresceu entre ovelhas, ordenhas e queijos, embora sem grande esperança no futuro. “Quando comecei a trabalhar não gostava desta vida. Todos os dias eram iguais, a rotina era sempre a mesma”, recorda. Haveria de ser “uma fase”, dois ou três anos, nada mais. Hoje, é uma das últimas queijeiras artesanais do concelho, que conserva em si os segredos e as técnicas do famoso queijo da Serra.

Aos 21 anos conheceu António Correia, hoje com 59, e o que parecia temporário ganhou força. Casaram em agosto de 1990 e, no meio dos parabéns e da festa, receberam um presente invulgar, 10 ovelhas oferecidas pelo pai. “Os presentes de casamento de antigamente não são iguais aos de hoje em dia. Quando começamos o nosso negócio tínhamos poucos animais, então o meu pai decidiu ajudar-nos com 10 ovelhas”, explica a queijeira guardense.

“Talvez o gosto já existisse mas, como acompanhava os meus pais, ainda não tivesse percebido. Ou talvez tenha surgido há pouco tempo”, confessa a queijeira natural de Videmonte. A verdade é que hoje, aos 54 anos, já não se vê longe desta vida. “Apesar do esforço físico e psicológico, já não me vejo a fazer outra coisa.”

O contraste é evidente. A jovem que sonhava com algo diferente e menos rotineiro é hoje mulher que dedica praticamente todo o dia ao rebanho e à queijaria. Não há horários flexíveis nem fins de semana prolongados. “A ordenha faz-se duas vezes por dia, de manhã e à noite. O dia começa por volta das 6h30 e só termina por volta das 21h30”, conta. Pelo meio há limpeza, preparação, cuidado com os animais e todo o processo de transformação do leite em queijo.

Desde janeiro de 2002 que Alcina e António têm a Queijaria em Videmonte, onde trabalham apenas os dois, num projeto familiar que depende das cerca de 170 ovelhas. São, atualmente, o casal mais jovem da aldeia a viver exclusivamente da criação de animais e da produção de queijo, um dado que diz muito sobre o envelhecimento do interior e sobre a raridade desta profissão.

Há, no entanto, uma pausa obrigatória no calendário. Entre junho e setembro, os animais entram em secagem e deixam de dar leite. A queijaria também abranda. Nos restantes meses, tudo depende do que a natureza decide. “Quando os campos têm bastante alimento, o leite melhora e a produção aumenta. Em invernos rigorosos, como os que temos enfrentado recentemente, os animais ficam retidos e a produção diária cai.” Em 2025 chegaram a produzir 12 queijos por dia; atualmente, a quantidade caiu para metade.

O ritual mantém-se simples e fiel à tradição, com o leite fresco a sair diretamente das ovelhas para a queijaria. Ali junta-se apenas sal e flor do cardo, a famosa planta roxa que é o segredo do queijo da Serra da Estrela e que Alcina também cultiva na sua quinta. A flor é tratada com o mesmo cuidado com que cuida de todos os ingredientes que compõem este produto secular. As folhas do cardo, com cerca de meio metro, são colhidas, secas à sombra para evitar humidade, reduzidas a pó e medidas com precisão, para depois usar cerca de uma colher de café por queijo.

“Faço a apanha do cardo duas vezes por semana. Durante o verão cresce muito rápido, o que não acontece no inverno. Felizmente é uma flor que, bem tratada, ou seja, bem apanhada e guardada, consegue aguentar de um ano para o outro”, explica. Conhecida como Cardo Coalheiro, a planta funciona como coagulante vegetal alternativo ao coalho animal. Dá ao queijo um sabor mais intenso, ligeiramente amargo e ácido, e contribui para aquela textura que faz qualquer amante do queijo perder a cabeça, numa pasta mole, untuosa e extremamente cremosa.

Os queijos de Alcina são feitos exclusivamente com o leite das suas ovelhas e com cardo de produção própria. Não há intermediários, nem bancas em feiras ou mercados, já que acabam por ser sempre vendidos diretamente na queijaria. “Os queijos que faço, muitas vezes não chegam para as encomendas”, revela.

“Há quem venha à porta da queijaria buscar os queijos porque sabem que acabam rápido. E, acho, que essa é a prova do meu bom trabalho”, diz com orgulho no produto, no cuidado com os animais e no processo artesanal que herdou dos pais e que mantém vivo todos os dias.

Sem certificação DOP, Alcina considera que esse é um acrescento irrelevante. A qualidade fala por si e, claro, é uma forma de evitar processos burocráticos. “Eram papeis e mais papeis e um processo muito demorado. Por isso, decidimos não avançar com o pedido de certificar a marca”, revela.

O futuro destes queijos de Videmonte pode estar mais assegurado do que Alcina alguma vez imaginou. Simone Correia, uma das filhas do casal, tem 28 anos e é engenheira do ambiente. Tal como a mãe, enfrentou uma fase de relutância em seguir o mesmo caminho dos pais. Hoje, o cenário é diferente. “Já não digo que não. Até me imagino, daqui a uns anos, a viver do campo”, confessa a jovem.

 

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    R. da Serra 41
    6300-245
PREÇO MÉDIO
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