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Burlões usam nome da NiT para enganar proprietários de restaurantes

Tiago Pinto foi vítima de um esquema que o lesou em mais de três mil euros. Saiba quais são os sinais de alerta.

Quando Tiago Pinto atendeu a chamada de um número desconhecido a 2 de dezembro, recebeu uma boa surpresa: um dos seus restaurantes fora nomeado como vencedor de um concurso gastronómico, que tinha como prémio monetário um valor a rondar os quatro mil euros. Do outro lado, um homem identificou-se como Rafael Taborda, um “representante da NiT” encarregue de fazer esta comunicação aos nomeados, num concurso que “era uma parceria da revista com a Tripadvisor”.

Este foi o primeiro passo de uma burla que lesou o empresário da restauração de 35 anos em cerca de três mil euros. Nenhum representante da NiT o contactou e não existe qualquer concurso em parceria com a plataforma online de viagens. Tiago Pinto, dono dos restaurantes Alma da Cidade e O Sobreiro, em Oliveira de Azeméis, só percebeu isso mais tarde, a 19 de dezembro, quando as desculpas dos dois burlões se multiplicavam, tudo para evitar dar mais respostas concretas às promessas feitas ao empresário.

“Quem me ligou inicialmente estava bem informado sobre a área da restauração”, recorda, apesar de ter estranhado alguns dos detalhes da notícia. A nomeação incidia sobre um dos pratos servidos n’O Sobreiro, que nem sequer era um dos mais procurados ou elaborados. “É um prato simples, uma alheira vegetariana que nem sequer tem grande ciência, porque nós compramos o produtos já feito, não temos condições para o fazer aqui.”

Apesar da estranheza, manteve a conversa com o burlão, que ligaria no dia seguinte, a abrir a porta à possibilidade de receber duas placas entregues aos restaurantes selecionados. “Uma era da revista NiT, a outra do Tripadvisor. Enviariam as placas normais, mas por mais dinheiro poderia receber uma placa dourada. Não achei o valor nada de especial e aceitei”, conta, alertando também para o facto de lhe ter sido pedido um “valor inicial” para desbloquear o prémio monetário. Nesse mesmo dia, fez uma transferência para um IBAN de uma conta associada ao banco digital Revolut, neste caso com sede na Lituânia, no valor de 91,8€.

Ficaria também combinada uma reportagem a ser realizada no local, por parte de supostos jornalistas da NiT, com a garantia de que “tudo o que fosse feito para a reportagem ou consumido seria pago”, para lá da oportunidade de visibilidade oferecida pela reportagem. “Teria, naturalmente, que pôr na mesa também o prato premiado”, revela.

Além de todas estas oportunidades, os burlões convenceram Tiago Pinto de que iria ser realizada uma cerimónia de entrega dos prémios no Porto, no Pavilhão Rosa Mota, onde poderia conviver com outros premiados como O Solar dos Presuntos. “Falava com muito conhecimento sobre o tema e chegou também a dar o exemplo do Solar dos Presuntos e do dono, o Pedro Cardoso, que também teria ganho o tal prémio”, explica o empresário, sobre a conversa tida já com um segundo burlão, um suposto superior hierárquico da revista, de nome Vítor Gomes.

Nesse mesmo dia, a 4 de dezembro, foram pedidos dois valores. O primeiro serviria para “desbloquear o pagamento do prémio monetário do concurso”, para que pudesse ser “transferido para a conta pessoal e não para a conta da empresa”, no valor de 430€, pagos por Tiago Pinto para o mesmo IBAN.

Foi esse novo indivíduo que introduziu o tema dos apoios de fundos europeus à restauração, com os quais a revista trabalharia – mais uma mentira. “Fiquei um pouco iludido nessa parte, porque conheço as dificuldades e complexidades desses processos”, afirma.

Do outro lado da linha, prometeram-lhe criar um projeto para o seu novo espaço aberto em 2025, o Alma da Cidade, que poderia beneficiar de vários apoios. A contrapartida? O pagamento de 2.480€ para “dar início ao pedido”. Tiago fez a segunda transferência do dia, no valor pedido pelos burlões.

“Esse Rafael Taborda estava sempre a ligar. Em simultâneo, o outro ia mandando mensagens a garantir a seriedade e que tudo estava a ser tratado”, conta. “Diziam que estes valores serviam apenas para desbloquear verbas e que receberia tudo o que enviei, mais o que tinha a receber.” A burla não ficou por aqui, apesar de, com o passar dos dias, Tiago ter começado a desconfiar das intenções dos dois homens.

Embora suspeitasse de que algo poderia estar errado, os dois indivíduos mantiveram-se sempre contactáveis, mas nunca para devolver as quantias. Esta terça-feira, 23 de dezembro, a NiT contactou os dois números, apesar de ninguém ter atendido as chamadas.

“Por norma, nas burlas, ao receberem o dinheiro desaparece. Não foi o caso, eles continuaram a responder e a falar comigo”, conta o responsável pelo restaurante.

A 10 de dezembro, já “algo saturado”, Tiago ligou para exigir a devolução do dinheiro. Do outro lado concordaram em fazê-lo, mas pediram mais um valor de 41,9€ para uma “taxa bancária que permitisse fazer a transferência”.

Foi a última transferência feita. “Percebi então que era mesmo uma burla. Não havia outra hipótese”, pensou. O último contacto que teve com os burlões aconteceu a 19 de dezembro. Nenhum valor foi devolvido.

Nota da direção comercial da NiT

A NiT lamenta profundamente que este tipo de burlas aconteçam em nome da nossa revista ou de quaisquer outra entidades. O procedimento descrito neste caso não corresponde à forma como o nosso departamento comercial se relaciona com potenciais clientes ou parceiros.

Por isso, sempre que o responsável por um restaurante, loja, marca ou outro tipo de negócio, for contactado por um suposto representante comercial da NiT, deve solicitar que todas as propostas sejam enviadas formalmente por email. O nome dessa pessoa, bem como o respetivo email, poderão ser confirmados na área de Contactos do nosso site.

Se continuarem a existir dúvidas sobre a veracidade destas propostas, pode enviar um email diretamente para a nossa redação ou ligar por telefone, através do número +351 218 871 225, e pedir para falar com a direção comercial da NiT.

A NiT informa ainda que irá, em conjunto com Tiago Pinto, apresentar uma queixa-crime contra os autores desta burla. No futuro, iremos também denunciar judicialmente outros casos semelhantes que utilizem o bom nome da nossa revista com o objetivo de retirarem, por essa via, proveitos ilícitos.

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