No início dos anos 90, numa das viagens à Alemanha, Deolinda Costa descobriu uma forma de vender comida que ainda ninguém conhecia na Guarda. Por essa altura, o takeaway estava já bem-estabelecido no país, mas por cá ainda não era propriamente um hábito comum.
Regressou à cidade com a ideia na bagagem e decidiu experimentar no seu primeiro restaurante, O Apetite que, há 35 anos venceu o prémio de qualidade e higiene alimentar ao lado de 400 restaurantes do distrito na Guarda. Em 2016, quando abriu o Sabores do Mercado, continuou com o mesmo conceito, negócio que ainda hoje faz sucesso na Guarda. Deolinda começou a perguntar aos clientes se queriam comer no espaço ou levar a comida para fora, mas nem todos os clientes percebiam a pergunta. O que começou por causar alguma estranheza acabaria por se tornar um hábito que hoje faz parte do dia a dia de muitos portugueses.
“Lembro-me de perguntar a um cliente se era para comer lá ou levar para fora e ele ficou sem saber o que dizer. Na Guarda não existia esse serviço, até que lhe expliquei como funcionava. Ele passou a palavra e começaram a chover pedidos de refeições em take away”, recorda a guardense de 68 anos, que hoje continua à frente do Sabores do Mercado, instalado no Mercado Municipal da Guarda.
Entre salgados e doces caseiros, há uma especialidade que continua a conquistar os clientes: o pastel de bacalhau. A receita, garante, não tem grandes segredos. O que faz a diferença é a qualidade e o cuidado na escolha dos ingredientes. “É uma questão de qualidade”, explica.
Entre os pastéis servidos no Sabores do Mercado e as encomendas para levar, Deolinda prepara diariamente entre 40 a 50 unidades. “Digo, com muito orgulho, que fui eu que implementei o takeaway na cidade”, reforça, com a mesma convicção com que começou esta aventura há mais de três décadas.
A preparação dos famosos pastéis começa com o bacalhau, que é cozinhado e depois fica a arrefecer. Só depois é desfiado e misturado com batata cozida e esmagada, cebola e alho picados, sal e pimenta. O toque final é dado por “uma boa quantidade de salsa caseira, que tem um sabor muito mais intenso”. Cada pastel de bacalhau custa 1€, mas também é possível comprar à dúzia.
Natural de Mido, em Almeida, Deolinda chegou à Guarda aos sete anos, quando a família se mudou para a cidade. O pai tinha emigrado e, mais tarde, a mãe acabou por se juntar a ele. Deolinda cresceu entre a escola e as responsabilidades de casa, que começaram a fazer parte da sua rotina desde cedo.
Única rapariga entre quatro irmãos, começou ainda pequena a ajudar nas tarefas domésticas e a tomar conta dos mais novos. “Fiquei a lavar a roupa, a fazer comida e a estudar”, conta. Na altura, sonhava seguir a área artística, mas foi também nesses anos que, talvez sem se aperceber, começou a construir uma relação mais próxima com a cozinha.
A oportunidade de dar continuidade ao trabalho na cozinha, depois de ajudar o marido no tralho, surgiu em 2016, no Mercado Municipal da Guarda. Um espaço que tinha ficado disponível junto ao talho chamou a atenção de Deolinda e acabou por se transformar no Sabores do Mercado. “Costumo dizer que este espaço apareceu por acaso, mas não deixei escapar a oportunidade porque queria muito voltar a trabalhar na cozinha”, conta.
Foi ali que começou uma nova fase, dedicada à preparação e venda de comida caseira. Hoje, o Sabores do Mercado tem salgados, bolos e outras especialidades, com uma aposta clara na produção artesanal.
Para Deolinda, cozinhar é muito mais do que preparar comida. É também uma forma de criar, de trabalhar com as mãos e de acompanhar cada etapa da preparação. “Gosto muito da cozinha”, confessa, ao explicar que prefere fazer tudo à mão e acompanhar pessoalmente o processo.
Entre todas as especialidades que saem diariamente da cozinha, há uma que ocupa um lugar especial, tanto entre os clientes como para a própria Deolinda. Quando lhe perguntam qual é o seu salgado preferido, a resposta surge sem hesitação: “É, de longe, o pastel de bacalhau”.
No verão, principalmente, “não tem mãos a medir”. Se durante o resto do ano prepara entre 40 a 50 pastéis por dia, às vezes chega aos 100, em agosto e nas épocas festivas, a produção pode aumentar, para responder à procura dos clientes.
Mas a oferta do Sabores do Mercado não se fica pelos pastéis de bacalhau. No balcão encontram-se também empadas de galinha (1.5€), croquetes (1€), rissóis de carne, peixe e camarão (1€) e de leitão (1.8€), além de bolos caseiros, como o de chocolate, cenoura, maçã e ananás (1.8€ por fatia), entre outras especialidades.
Atrás do balcão, Deolinda conta com a ajuda da amiga Carolina, de 32 anos. Por ali mantém-se um ambiente familiar e apesar de o mercado estar “cada vez mais abandonado”, a guardense continua a encontrar esperança e otimismo nas receitas que continuam a vender. Mas o trabalho diário é também uma forma de manter uma rotina familiar. Depois de o marido ter sofrido quatro AVC, manter-se ligada ao trabalho tornou-se uma forma de o ajudar a continuar ativo. “Enquanto ele puder estar, eu acabo por estar”, conta.








