Mestre da Castanha. É por esta alcunha que ficou conhecida Emília Lima, que passou os mais de 30 anos de experiência na cozinha a imaginar novas formas de criar doces tradicionais com o ingrediente, que é já uma assinatura pessoal. Foi isso que esta doceira voltou a mostrar no fim de semana de 16 e 17 de maio, durante o evento Momentos com Vinho, onde participou a convite da Câmara Municipal. Para a ocasião, apresentou uma desconstrução da cavaca de Freixinho, o tradicional doce conventual da região, harmonizada com vinho.
“A cavaca difere das outras pela sua estrutura, que é maior e mais grossa”, explica sobre a abordagem ao doce tradicional, num desafio que decidiu abraçar sem perder a identidade original da receita. “A lógica foi sempre respeitar a receita tradicional, desde o sabor até, de certa forma, ao aspeto”, sublinha.
A chef optou por trabalhar o doce em diferentes camadas. “Desconstruí e depois voltei a montar em camadas. Uma mais húmida, onde utilizei o vinho para fazer uma mousse. Outra parte da cavaca desidratei para criar um elemento crocante. Utilizei ainda a parte exterior, o vidrado do açúcar, para fazer a decoração da nova receita”, explica Emília Lima, de 54 anos, que é uma espécie de guardense adotada.
Natural de Carregal do Sal, completou a escolaridade básica na terra natal e, aos 18 anos, iniciou um curso de desenho de mobiliário moderno, numa altura em que as fábricas de móveis e oficinas de talha dourada marcavam a economia local. Aos 19 anos mudou-se para a Guarda, cidade onde vive e trabalha há mais de três décadas. “Comecei num snack-bar que existia na Rua Direita. Trabalhei lá como ajudante de cozinha e, mais tarde, tirei o curso de restauração”, recorda.

À medida que foi ganhando técnica e experiência, começou também a explorar o ingrediente de várias formas. A primeira receita que criou foi precisamente um bolo de castanha, embora o resultado não tenha sido propriamente o esperado. “A primeira tinha que ser aquela que vi a minha mãe fazer. Saiu um bocadinho massudo porque, em vez de utilizar farinha de castanha, usei puré de castanha.” Foi esse erro que acabou por despertar a vontade de aprofundar o conhecimento sobre o produto.
Em 1991, foi cofundadora do restaurante Aquáriu’s, na Guarda, espaço que continua aberto e se tornou conhecido pela aposta em marisco e peixe fresco. Durante 18 anos trabalhou intensamente no restaurante até decidir dedicar-se ao ensino. “Queria aprender mais, evoluir e passar tudo o que sei a quem quer aprender”, explica. Depois de vender a sua parte do negócio ao sócio, investiu em formações e especializações na área.
O primeiro showcooking profissional aconteceu na BTL, em Lisboa, há cerca de nove anos, perante uma plateia de aproximadamente 700 pessoas. Desde então, os convites multiplicaram-se e Emília participa regularmente em eventos gastronómicos, festas culturais e programas de televisão como os da TVI e da RTP.
Apesar da experiência acumulada, admite que o nervosismo continua presente antes de cada apresentação. “Ainda hoje, apesar dos anos, sempre que estou para iniciar uma apresentação sinto aquelas borboletazinhas na barriga, mas desaparecem no momento em que começo a falar.”

Nos seus livros, guarda perto de 60 receitas com castanha já testadas e desenvolvidas e um dos objetivos pessoais passa agora pela publicação de um livro que reúna todo esse trabalho. Ao longo dos últimos anos tem guardado mensagens e assinaturas de alunos para incluir nas contracapas da futura edição. “Tenho feito uma recolha de assinaturas e pequenas dedicatórias dos formandos que quero colocar nas contracapas do meu livro”, revela.
Durante nove anos trabalhou também como formadora de RVCC Profissionais no distrito da Guarda, ajudando cozinheiros sem certificação a obter reconhecimento oficial. “Tenho muito orgulho nessa parte, porque ajudei algumas pessoas a ficarem oficialmente como cozinheiros e cozinheiras.”
Atualmente dá aulas no IEFP da Guarda, na ADM Estrela, na Escola Profissional Beatriz Ângelo e na Escola Profissional de Sernancelhe. E apesar de já ter recebido convites para trabalhar no estrangeiro, nunca quis sair da Guarda. “Não trocaria a Guarda porque me sinto feliz e realizada a fazer o que faço”, garante.







