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Na Casa da família Lopes, o aroma a Bom Café acabado de moer está no ar há 100 anos

Fundada em 1925, é a única loja na Guarda com moagem dos grãos na hora, — num moinho Almacinha que podia estar num museu.

Robusto, manual, o antigo moinho vermelho de ferro fundido, da marca portuense Almancinha, é mais do que um instrumento de trabalho: na Casa do Bom Café é também um guardião de memórias. A máquina, ainda em funcionamento, e instalada no mesmo sítio há décadas, tritura grãos com uma precisão quase cerimonial. O som regular da manivela e o aroma que se espalha pelo ar fazem do moinho uma testemunha: ali, a tradição continua a marcar o ritmo do quotidiano.

A Casa do Bom Café é uma loja centenária da cidade, reconhecida pela sua herança e por ser a única da região onde “a moagem é feita na hora”. Fundada por Joaquim Dias Lopes, que registou a marca em 1925, destacou-se, desde o início, pela qualidade artesanal e pela atenção a cada detalhe. 

Mantém, desde o “ano zero” da Delta, marca criada em 1961 por Rui Nabeiro, uma colaboração ininterrupta que se tornou parte essencial da sua identidade.

O tempo fez do negócio uma história de família. Já na terceira geração, a tradição continua viva: Maria Francisca, filha de Bruno — neto do fundador —, com seis anos, acompanha o pai ao balcão e começa a ganhar gosto pelo ofício da família. A continuidade parece natural, quase inevitável, numa casa onde o quotidiano se confunde com o passado.

Situada na Praça Luís de Camões, a dois passos da Sé da Guarda, a loja preserva o encanto das antigas casas comerciais. À entrada, os toldos protegem da chuva e do sol; no interior, o ambiente acolhe quem chega com prateleiras repletas de café à vista e vitrines cheias de rebuçados e bombons coloridos, onde escolher é um desafio. No centro, impõe-se o antigo moinho, que é também símbolo de perseverança.

António Lopes, filho do fundador, começou cedo a ajudar o pai, com quem aprendeu os segredos da moagem. Com o passar dos anos, transformou essa aprendizagem num desígnio pessoal e profissional, garantindo a passagem de testemunho às gerações seguintes. A clientela, fiel há décadas, mantém uma ligação constante à casa, valorizando a estabilidade e o trato próximo que sempre a caracterizou.

Professora no secundário, Maria Hermínia, mulher de António, dividia o tempo entre o ensino e o atendimento no espaço da família. O seu rosto era habitual entre os frascos de café e os pacotes de açúcar — no fim das aulas, voltava à loja para aconselhar os clientes, um atendimento afável que se tornou uma referência. 

Mais tarde, foi Bruno Lopes, filho de António e Maria Hermínia, quem assumiu as rédeas do negócio. Com passagens por Lisboa e Porto, para estudar Direito, “as raízes e a família falaram mais alto”, conta à NiG, e regressou à terra natal. Hoje, aos 43 anos, gere a Casa do Bom Café com sentido de legado e zelo. “Sinto mais responsabilidade por manter este negócio”, confessa, sublinhando a vontade de preservar a qualidade que atraiu clientes por tantas gerações. A irmã de Bruno, Sofia, seguiu parcialmente as pisadas da mãe ao dedicar-se ao ensino. E, tal como ela, concilia as aulas com a ligação ao negócio, repetindo outro padrão familiar. 

Antes da ligação à Delta, o “café verde” vindo de São Tomé era presença habitual nas prateleiras. A casa conserva como relíquia o moinho que continua a ser usado diariamente. Bruno explica que a precisão no uso da máquina é determinante: “É preciso ter o conhecimento sobre as máquinas que os clientes usam e o café. Quando a moagem é feita, saber o tipo de máquina permite perceber se a moagem tem de ser fina ou mais grossa para obter um café perfeito.” Essa perícia técnica, aliada ao paladar apurado, garante a harmonia entre o grão e sabor pretendido pelo cliente.

casa bom cafe
O moinho Almancinha é a principal atração da loja.

A Delta continua a ser a marca de eleição da casa, que oferece diferentes tipos de grãos, embalagens e medidas. Os preços variam entre os 5,50€ por 250 gramas e os 6 € na versão sem cafeína. Há ainda a mistura ibérica — café com cevada e chicória —, alternativa natural, rica em fibras e produzida a partir da raiz torrada da planta (Cichorium intybus), vendida a 2 € (250 gramas).

A diversidade prolonga-se nas vitrines: cerca de trinta tipos de bombons, com e sem açúcar, com preços que vão dos 10 € aos 35 € o quilo. A variedade de sabores complementa a oferta e atrai quem procura um café artesanal com algo doce a acompanhar.

Fiel às raízes, a casa continua a introduzir pequenas novidades. A próxima será lançada na Páscoa: as vitrines vão receber cerca de 50 variedades de amêndoas, com opções para todos os gostos. Mesmo com mais de 100 anos de portas abertas, a Casa do Bom Café mantém-se dinâmica e próxima dos clientes, provando que o tempo só reforça a essência que a distingue.

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FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua da Torre 2
    6320-069 Guarda
  • HORÁRIO
  • Segunda a sábado das 9h às 20h
PREÇO MÉDIO
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