Em 2010, os dias pacatos na pequena fábrica da aldeia de Verdugal ficaram mais agitados. À caixa de correio começaram a chegar dezenas de pedidos de encomendas de um produto especial, as navalhas artesanais com cabo de madeira. Os pedidos vinham sobretudo de Espanha e França, na sua maioria de restaurantes. Para a família Pires, habituada a um negócio estável e discreto, foi um ponto de viragem. De repente, a cutelaria fundada em 1948, na localidade com cerca de 400 habitantes, estava a enviar quase toda a produção para fora do País.
A Cutelaria Ernesto Pires & Filhos é atualmente gerida pela quarta geração, que assistiu a esta mudança brusca. O sucesso foi tal que, em 2011, a empresa decidiu patentear o modelo.
Helena Pires, de 50 anos, recorda bem essa fase. “Já chegamos a ter encomendas de 4000 a 5000 facas, todas para fora do País”, explica uma das proprietárias da cutelaria. “Vendemos muito cá em Portugal, mas a maior percentagem vai para o estrangeiro. Talvez 70 por cento das encomendas vão para França e Espanha, principalmente”, revela.
As navalhas — tal como as facas — combinam “técnicas artesanais tradicionais com aço inoxidável de alta qualidade, garantindo cortes precisos e durabilidade”, explica. O domínio da técnica tem décadas e remonta a Ernesto Pires, o avô, que começou a produzir facas num pequeno anexo da casa. O que começou quase por acaso tornou-se num legado familiar. “Decidiu ser cuteleiro para o resto da vida”, recorda a empresária natural de Verdugal, que hoje se mantém no negócio com os tios.
A história, porém, é ainda mais antiga. “Começou pelo meu bisavó, Albino Pires, passou para o meu avó, pai e agora, estou, há 30 anos, junto dos meus tios, António e Manuel Pires, a gerir o negócio”, explica. Estudou na Guarda, mas cresceu a ver o pai trabalhar e percebeu cedo que queria manter vivo o negócio de família, que conta ainda com mais três funcionários. “Costumo dizer que é um patrão para cada funcionário”, graceja.

Durante décadas, o processo era quase todo ele manual, mas com o aumento da procura, foi preciso encontrar um novo equilíbrio. Atualmente, metade do trabalho é feito por máquinas; a outra metade permanece num processo artesanal. “Com as encomendas que temos era quase impossível fazer tudo à mão”, admite.
O aço chega em barras de dois metros, é cortado à medida, perfurado para o parafuso e segue para tratamento térmico no forno, entre 900 e 1000 graus. Depois vem o polimento, a colocação do cabo de madeira, o afiamento e a embalagem. O afiamento individual, o prego de fixação e a embalagem final continuam exclusivamente manuais. Cada peça demora cerca de uma semana até ficar pronta.
Em 2007, adaptaram-se também às regras do mercado nacional. As peças, conhecidas pelos seus cabos tradicionais de madeira, tiveram que ganhar novos companheiros. “Começamos também a produzir facas com cabo em plástico”, que Helena confessa “esteticamente não serem tão bonitas”, mas as regras ditaram que esse teria que ser um caminho a percorrer.
As célebres navalhas custam entre custam 5€ e 25€ dependendo do tamanho da lâmina. Há ainda conjuntos especiais de quatro unidades por 20€ que podem ser compradas através do site oficial ou diretamente na fábrica.
Apesar do sucesso fora de portas Helena olha para o futuro com preocupação. “Há muito trabalho, mas pouca gente que quer trabalhar, principalmente nesta área.” Ainda assim, não pensa desistir. Garante que “enquanto puder vai continuar.” “É uma arte como há poucas. Um trabalho de família que se distingue não só no nosso País, como no estrangeiro.”

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