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Chegou a Portugal com 50€ no bolso. Cinco anos depois, já é dono do próprio salão na Guarda

O brasileiro vendeu tudo o que tinha para recomeçar na Europa e acabou por escolher a Guarda como a sua “cidadezinha do coração”.

Não falta quem decida mudar de vida, mas são poucos os que efetivamente se atiram de cabeça ao desafio. Washington Mendonça não é um desses casos. Em 15 dias, o brasileiro vendeu todas as posses, comprou um bilhete e aterrou com apenas 50€ no bolso e o sonho de recomeçar num país estranho.

O caminho não foi fácil e agora, cinco anos depois da chegada, pode finalmente dizer que o objetivo foi cumprido. O brasileiro é hoje o orgulhoso dono do seu próprio negócio, um cabeleireiro na Guarda que carrega o seu nome.

A decisão de recomeçar longe de casa surgiu depois de vários anos a trabalhar no Brasil como cabeleireiro, uma profissão que descobriu ainda adolescente, quando o bullying de que era vítima por causa do cabelo o levou a pegar numa tesoura e a cortá-lo sozinho. Com o tempo, transformou essa experiência numa profissão e chegou a ter o próprio espaço, dedicado sobretudo ao cabelo masculino.

A vontade de deixar o Brasil apareceu mais tarde, depois do fim de uma relação. Ton decidiu sair da cidade onde vivia e começou a ponderar deixar o País, numa mudança que acabou por acontecer rapidamente. “Vendi tudo o que eu tinha e fui embora para São Paulo”, recorda. Depois de São Paulo, passou por Minas Gerais e, alguns anos mais tarde, decidiu atravessar o Atlântico.

A chegada à Europa aconteceu em dezembro de 2021. Como viajou como turista, teve de comprar bilhetes e ficou com apenas 50€ para a alimentação dos primeiros dias. “A alimentação foi gerida com supermercados e bolachas, as coisas mais baratas”, conta.

Na bagagem levava aquilo que lhe permitia trabalhar, todo o seu material de cabeleireiro. Assim que chegou a Espanha, País onde ficou depois de sair do Brasil, começou a divulgar os seus serviços na Internet, publicou anúncios em páginas locais e conseguiu os primeiros cliente. “A partir daí os 50€ multiplicaram-se um pouquinho rápido”, recorda.

O fascínio pela arte de cortar cabelos começou na adolescência, de forma pouco óbvia. Aos 14 anos, Ton – diminutivo pelo qual é conhecido – sofria bullying na escola por ter o cabelo comprido e, depois de ficar insatisfeito com um corte feito por uma conhecida da mãe, decidiu resolver o problema sozinho com uma tesoura que a mãe utilizava para cortar o cabelo dos filhos. “Decidi que ninguém nunca mais tocaria no meu cabelo”, recorda.

Os amigos começaram a dizer-lhe que tinha jeito e Ton percebeu que poderia transformar essa habilidade numa profissão. Fez formações, primeiro na área masculina e, mais tarde, começou também a trabalhar com cabelo feminino. “Comecei a ver que o cabelo das mulheres também não era um mistério tão grande”, explica. Hoje, conta com muma experiência de mais de 10 anos a cortar cabelos profissionalmente.

Quando chegou a Portugal, Ton esteve inicialmente no Porto e seguiu depois para Vila Real, onde uma amiga brasileira lhe conseguiu trabalho na sua área. Ficou na cidade cerca de um ano a um ano e meio, mas começou a sentir que Vila Real estava saturada na sua área e, depois de ter vivido em cidades como São Paulo e Belo Horizonte, sabia que queria continuar num lugar mais pequeno e tranquilo.

A Guarda apareceu quase por acaso. Tinha sido a primeira cidade portuguesa por onde passara quando veio de autocarro para Portugal e, mais tarde, a 25 de abril de 2023, acabou por ficar. Aos poucos, deixou de ser apenas uma cidade de passagem e tornou-se o lugar que escolheu para viver, a sua “cidadezinha do coração”.

Chegou, naturalmente, sem clientes nem uma rede profissional estabelecida, trabalhou durante alguns meses na cozinha de um restaurante e, entretanto, foi chamado para a Coficab, empresa que fabrica e vende fios e cabos elétricos, onde permaneceu durante três anos. Mais tarde, chegou a acordo com os responsáveis para sair e poder voltar a dedicar-se exclusivamente à profissão que sempre quis seguir.

Mesmo enquanto trabalhava na empresa, as tesouras nunca ficaram esquecidas. Divulgava em grupos de brasileiros da Guarda que fazia cortes ao domicílio, tanto para homens como para mulheres, e começou a conquistar clientes através de amigos, conhecidos e recomendações. “Fui conhecendo pessoas e comecei a ter a minha lista de clientes”, conta.

A abertura do salão foi o passo seguinte. A inauguração aconteceu a 9 de agosto de 2025, num espaço situado junto à pastelaria Rossio, na Guarda. Começou com uma lista de clientes ainda pequena mas “construída com esforço.”

Hoje, o salão recebe homens e mulheres. Na área masculina, Ton faz cortes à tesoura, à máquina e combinados, além de tratamentos de barba e barboterapia com vapor de ozono. Realiza também diagnósticos gratuitos relacionados com a saúde do cabelo e do couro cabeludo, incluindo sinais de início de calvície. A formação em tricologia permite-lhe avaliar a saúde do cabelo e aconselhar o cliente a procurar um dermatologista quando identifica situações que necessitam de avaliação médica.

O apoio de Ton vai muito além do simples corte, como recorda sobre a ajuda que deu a um cliente que apresentava várias manchas provocadas por colorações anteriores. Depois de cerca de quatro meses sem pintar o cabelo, passou uma manhã inteira no salão para recuperar a cor. O resultado deixou-a feliz e, dias depois, a filha enviou uma mensagem a Ton a contar que a mãe estava muito contente com a transformação. “O olhar da cliente no final ficou na minha memória”, revela.

Mas nem todos os clientes passam horas na cadeira. Ton já recebeu no salão bebés com menos de um ano e são precisamente esses que brinca serem os mais fáceis de atender. “Costumo dizer que são os meus melhores clientes. Ficam ali sossegados e não dão trabalho nenhum.”

Na decoração, o brasileiro preferiu manter as coisas simples. “o foco principal vai para o chão, que escolhi azulejos em azul” e para o balcão onde está o seu nome. Mais do que um elemento decorativo, ver esse nome no espaço acaba por resumir o caminho que fez desde que atravessou o Atlântico com pouco mais do que o material de cabeleireiro e 50€ no bolso. “Para mim é um orgulho porque cheguei sem nada, arrisquei e já estou há um ano a fazer o que sempre quis”, conta.

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