“Mais uma? Isto agora são só barbearias?” Foi desta forma que Guilherme Silva foi surpreendido por um cliente já com alguma idade, numa tarde de 2024. Respondeu que já tinha aberto o espaço desde 2016, mas em resposta ouviu: “Isso diz-me você, mas não acredito”. Nesse momento, Guilherme e o cliente que estava a ser atendido trocaram olhares e riram da situação.
O episódio aconteceu na Zé Ginja, uma barbearia na Guarda que nasceu de forma inesperada, como uma homenagem especial. Quando era pequeno, Guilherme nunca tinha pensado em seguir a profissão do bisavó barbeiro ou do avó materno, alfaiate. Na verdade, queria ser “um Power Ranger branco”, conta.
A mudança ocorreu quando um amigo pediu para lhe cortar o cabelo. Apesar de não ter experiência, aceitou o desafio. O corte correu bem e foi assim que descobriu uma paixão pela profissão. “Cheguei ao fim do corte e pensei: isto é engraçado.” Foi nesse momento que surgiu o gosto pela profissão.
Guilherme Silva, de 34 anos, é natural de Vila Fernando, uma aldeia a 15 quilómetros da Guarda. Mudou-se para a cidade aos três anos, mas regressou à aldeia aos 28, onde vive desde 2018. Foi a ligação forte à família que ditou o regresso: “Os meus avós, tanto maternos como paternos, são de Vila Fernando.”
Estudou até ao 12º ano da Guarda, na Escola da Sé, e decidiu apostar nos cortes de cabelo e barba, atividade que o levou até à capital “para procurar formações profissionais”, explica. A aventura começou em 2010 e, passado cinco anos, Guilherme tornou-se, oficialmente, barbeiro. Antes disso, fez um estágio num salão de cabeleireiro na Guarda durante nove meses.
Barbearia Zé Ginja
Em 2016, a Zé Ginja abria as portas na cidade onde Guilherme cresceu. Ao projeto juntou-se o primo, designer e responsável pela identidade visual, que sugeriu incorporar o nome do bisavó no negócio, combinando-o com um elemento visual que representasse quem estava a continuar o legado. A barba de Guilherme foi incorporada no logotipo como um traço característico, criando uma ponte entre o passado e o presente. O primo continua envolvido, validando todas as alterações estéticas da barbearia.
Embora tenha memórias muito vagas do bisavó barbeiro, pois tinha apenas três anos quando faleceu, Guilherme mantém contacto com a história através das memórias que vai ouvindo dos vizinhos da aldeia. “As pessoas falam-me do jeito dele, das mãos, já que tinha os dedos muito grossos.” Guilherme mantém alguns materiais antigos do bisavó, oferecidos por uma tia, alguns dos quais estão expostos na barbearia, bem como fotografias, criando uma ligação com o passado.
O espaço foi pensado de forma estratégica e funcional. Quando Guilherme chegou à loja, uma das primeiras mudanças que fez foi substituir o corrimão de ferro branco por um de madeira mais escura. A distribuição segue uma lógica clara de divisão funcional. “Quando o cliente chega, tem uma zona onde pode esperar sentado pela sua vez, separada da zona onde estou a trabalhar.” Esta separação é importante para “criar conforto aos clientes, tanto aos mais extrovertidos, quanto aos mais tímidos”, explica.
A decoração combina elementos vintage com design moderno, criando dois ambientes distintos. “Quis fazer uma mistura, trazendo para a sala de espera tons mais escuros e algumas molduras mais antigas.” O piso em xadrez preto e branco, combinado com a madeira, funciona como elemento estético e separa as duas áreas.
No entanto, nem tudo foi feito do dia para a noite. “Ao longo destes 10 anos fui construindo o espaço aos poucos.” Muitas peças foram reutilizadas de móveis familiares e fotografias antigas. “Fui aproveitando algumas coisas, como as fotografias de casa da minha avó.”
O barbeiro que só tem vaga daqui a um mês
Entre 2016 e 2021, a barbearia tinha uma agenda tão cheia que os clientes só conseguiam marcar com um mês de antecedência. “Sou conhecido como o barbeiro que só tem vaga daqui a um mês.” Muitos clientes sugeriram contratar outro barbeiro, mas Guilherme sabe que não há ninguém que não queira ser atendido por ele. Ainda recorda, com humor, ter dito aos clientes: “coloco aqui alguém, mas será ele a atendê-lo”. A resposta foi mais séria: “Nem pensar”.
A situação mudou com a abertura de outras barbearias, em 2018. “Surgiram mais espaços e, ao fim de um dia de trabalho, há quem prefira ir a um sítio mais perto de casa.” Agora consegue oferecer um melhor serviço com vagas disponíveis, uma semana após o contacto. “Desta forma, também consigo ter clientes novos”, revela.
Guilherme continua a evoluir profissionalmente, aprimorando técnicas e acompanhando tendências, consolidando-se como referência na Guarda. Para o futuro, a opção de abrir um novo espaço, desta vez mais amplo, ainda não está em cima da mesa. “Prefiro ir com calma e, quando tiver a certeza de que é o momento certo, irei avançar.”
Carregue na galeria para conhecer a barbearia Zé Ginja.

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