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Estes artesãos lutam para salvar da extinção a famosa manta de Maçaínhas

Com mais de 300 anos de história, o Cobertor de Papa está ameaçado pela falta de artesãos e pelas imitações baratas.

Ao longo de três séculos que o Cobertor de Papa foi orgulhosamente produzido na freguesia de Maçaínhas, na Guarda, objeto também conhecido como Manta do Pastor. Só que em 2016, o último artesão que ainda dominava o processo deixou de produzir e com ele extinguiu-se uma tradição local histórica e um produto têxtil que atravessou gerações.

Ainda assim, o Cobertor de Papa não desapareceu por completo. No distrito começaram a surgir imitações que procuravam replicar a estética do original, mas sem respeitar os métodos e os materiais tradicionais. Eram peças apelativas à primeira vista, mas não eram a verdadeira manta do pastor. “Não eram de 100% lã churra, ou não respeitavam os processos artesanais que definem a textura, a largura e o pelo característico da peça”, explica Céu Reis. Essas práticas levaram a um processo em tribunal que dura há mais de quatro anos, colocando a associação frente a frente com esses produtores. O objetivo passa por “acabar com as falsificações e provar que a Associação cumpre todas as medidas obrigatórias para fazer este produto”.

Dois anos depois, Céu e mais três artesãos decidiram unir esforços e criar, a 15 de maio de 2018, a Associação O Genuíno Cobertor de Papa. A missão ? Defender o património da freguesia, proteger o produto e a dignidade do trabalho artesanal e manter viva a memória e a tradição deste cobertor. Trata-se de uma técnica que assenta em conhecimento local e numa matéria-prima muito específica, a lã churra, áspera, de madeixas longas e pontiagudas, responsável pelo pelo comprido e resistente da peça final.

O nome Cobertor de Papa nasce precisamente do processo de fabrico. Ao longo das várias etapas, forma-se uma “papa”, uma espécie de massa de fibras que define o acabamento e o toque final do cobertor. A tradicional Manta do Pastor distingue-se ainda pela paleta de cores branca e castanha e por ser feita a 100 por cento de lã. Essa composição torna-a especialmente quente, porque “não deixa, nem que o calor saia, nem que o frio entre”. “Era uma mais valia antigamente e ainda o é hoje”, sublinha Céu Reis, de 56 anos, uma das artesãs fundadoras da Associação.

O processo de fabrico mantém-se fiel às práticas ancestrais e tudo começa nas tosquias. Depois de recolhida e lavada, a lã segue para a fábrica Têxteis Tavares, na Guarda, onde é fiada. Com o fio pronto, enchem-se as canelas, suportes de madeira que são depois colocados na lançadeira, a ferramenta que transporta o fio de um lado para o outro e prepara o tear para a tecelagem.

Concluída essa fase, o cobertor segue para o pizão, uma máquina movida a água, equipada com duas pernas de madeira que batem no tecido, compactando-o e ajudando a formar a papa característica. Depois entra na cardadeira, uma etapa determinante, responsável por criar o pelo do cobertor, num processo que pode demorar cerca de quatro horas. Por fim, a peça é levada para a rambela de sol, onde seca e alarga até atingir a largura final de 1,70 metro. Um ajuste necessário, já que a lã encolhe quando está molhada.

Atualmente, a associação reúne quatro artesãos — além de Céu Reis, Rosa Baía, a artesã mais velha com 91 anos, Dulce Inácio com 57 anos e Joaquim Gonçalves com 50 anos — e enfrenta novos desafios à sustentabilidade do processo. O único lavadouro do país encerrou em outubro do ano passado. Até agora, esse encerramento “ainda não trouxe impacto à associação”, garante Céu Reis, mas as preocupações mantêm-se. “Se for necessário lavar a lã fora da freguesia, será difícil acompanhar o processo”.

Estes cobertores foram criados para os pastores da Serra da Estrela, serviam de abrigo e proteção contra o frio intenso, sobretudo no inverno, quando as temperaturas descem abaixo de zero. A tradição remonta a 1758 e chega aos dias de hoje, embora ameaçada pela falsificação do produto artesanal e pelo encerramento dos lavadouros. Perante este cenário, a produção tradicional pode tornar-se cada vez mais reduzida e voltar a correr o risco de desaparecer.

Apesar do futuro incerto, a Associação mantém-se firme na intenção de preservar esta tradição e este produto artesanal. Ao longo de quase oito anos, os artesãos têm promovido o Cobertor de Papa de várias formas, incluindo o processo de reconhecimento como Património Cultural Imaterial. As peças produzidas pela Associação podem ser adquiridas diretamente junto dos artesãos e em espaços dedicados à preservação do legado português, em Sever do Vouga e na Saberes e Sabores da Beira Baixa, com preços a partir dos 100 euros.

Carregue na galeria para ver os detalhes do cobertor.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Estrada Nacional 338, nº 7
    6300-126 Maçainhas de Baixo

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