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De Aldeia do Bispo para os palcos: o músico guardense que homenageou a Sé

Cláudio Vaz, natural de Aldeia do Bispo, é hoje professor de piano e músico em vários projetos em Águeda.

Foi durante uma festa de aniversário que Cláudio Vaz sentiu o primeiro impulso para a música. Assim que a canção terminou na sala, correu para o quarto, onde tinha um pequeno órgão. “Sentei-me e, segundo dizem os meus pais, toquei corretamente a melodia dos Parabéns ao piano”, recorda o guardense, natural da Aldeia do Bispo. Desde então que o instrumento (e a música) se tornou no seu companheiro inseparável.

Foi essa parceria que deu também origem a um momento marcante, em 2006, ano em que o professor de música de 37 anos compôs um tema em homenagem à cidade e ao seu monumento mais emblemático, a Sé. A música de coro de câmara a quatro vozes, foi apresentado na Igreja da Misericórdia da Guarda.

Cláudio é um dos muitos talentos musicais da terra – a NiG tem falado com alguns, como é o caso do guardense que brilhou no Festival da Canção ou o produtor que regressou a casa para combinar música e projetos sociais – que acabou por ter de se mudar. É hoje professor de formação musical, no Conservatório em Águeda, e pianista acompanhador na Universidade de Aveiro e Águeda.

O percurso é um resultado de mais de três décadas de ligação à música, que o acompanhou sempre. “Em casa, os meus avós e os meus pais estavam sempre a cantar”, recorda. Eram quase todos membros do coro da igreja de Aldeia do Bispo. Com 10 anos, entrou pela primeira vez no Conservatório da Guarda, onde estudou piano durante oito anos.

Hoje, está do outro lado da mesa, a ajudar estudantes ambiciosos. “Gosto de os ajudar nas questões que eu próprio enfrentei enquanto estudante, dar-lhes apoio nas aulas e nas questões práticas”, explica.

Em 2000, com 12 anos, foi o vencedor do primeiro concurso de piano do Conservatório da Guarda, e em 2001 começou a participar em várias formações na cidade para “ganhar mais conhecimento sobre a música e os instrumentos”. Nesse ano participou na atividade Oficina de Etnografia, uma iniciativa que visava salvaguardar e promover o património cultural imaterial da cidade, realizada no Paço da Cultura, na Guarda. E no ano seguinte participou na formação Instrumentos Musicais Populares Portugueses, que estuda, conserva e divulga os instrumentos tradicionais da região.

Aos dezoito anos, acabaria mesmo por dizer adeus à Guarda e mudou-se para Aveiro. “Fui um dos poucos da região a seguir esse caminho”, explica sobre a necessidade de sair para poder evoluir. Licenciado em música e mestre em ensino vocacional, admite que o mestrado não era o que inicialmente tinha idealizado. “Queria especializar-me em piano mas nas audições não passei. O curioso é que, ainda quando estava a estudar, fui convidado pela Universidade para lecionar num conservatório em Águeda”, nota.

Apesar de viver em Águeda, o artista continua intimamente ligado à aldeia que o viu crescer. Em abril de 2025, Cláudio Vaz participou no projeto “Arte e Música n’Aldeia do Bispo”, um evento cultural que representa, ao som de música contemporânea, o legado histórico da aldeia.

Além de lecionar, Cláudio é membro de dois grupos musicais, na companhia de dois colegas. O Prestige Trio e Amicis Ensemble, que atua principalmente em casamentos e batizados, e um coro, o Etos Vocal Ensemble, que junta músicos profissionais e amadores que atuam em vários eventos na cidade.

Para Cláudio, a música “não é meramente uma questão profissional, mas um modo de vida”. Um princípio que, recorda, lhe foi incutido pelo pai, que ocasionalmente lhe dizia que “se não sabes fazer mais nada, então segue a música”. Uma ideia que não interpreta como negativa. “É de quem sabe o que diz”, explica sobre a experiência musical do pai.

E embora viva da música, reconhece que talvez fosse mais difícil de o conseguir se se tivesse mantido na Guarda. “Regressar não está nos planos”, confessa, embora sonhe com um cenário diferente: “Se a música fosse vista com outros olhos e as oportunidades fossem maiores…”

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