Entre a viagem da Guarda a Lisboa e o pesadelo que foi para os pais de Beatriz Cardoso conciliarem horários para levarem a jovem até ao evento de seleção para o The Voice Portugal, o pior aconteceu. No dia do casting, a guardense, então com 15 anos, acordou completamente afónica.
Beatriz não desistiu. Depois de todo o esforço para estar presente, subiu ao palco e tentou a sorte. “Não correu como esperava, mas a experiência revelou-se uma importante aprendizagem”, recorda a artista, hoje com 24 anos e que leva uma vida dupla: durante o dia, trabalha como farmacêutica; à noite, espalha o rock pelos palcos do concelho.
A relação de Beatriz com a música começou logo aos sete anos quando subiu ao palco da Academia de Música de Pinhel, de onde é natural, para interpretar “All I Want For Christmas Is You”, de Mariah Carey. Embora fosse apenas mais uma atuação de uma jovem estudante, aquele momento acabaria por marcar o início de um percurso bem-sucedido. Teve aulas de piano, clarinete e coro e foi ali mesmo que “nasceu o amor pela música”, refere. Mas foi a entrada na Banda Filarmónica de Pinhel que deu um novo significado a essa paixão.
“Tudo aconteceu graças aos meus professores, Ângelo Marques e Gonçalo Pinto”, conta, referindo-se a duas figuras que continuam a ocupar um lugar especial no seu percurso. Passados cerca de 18 anos desde aquela primeira atuação, os nervos surgem quase sempre antes de cada concerto. Para Beatriz, é uma mistura de entusiasmo e expectativa, sinal de que “a paixão pela música permanece tão viva quanto no primeiro dia”.
Os concursos surgiram ainda durante o percurso escolar. Aos 14 anos participou no “Chuva de Estrelas”, organizado pela Escola Secundária de Pinhel, uma iniciativa que reúne alunos de vários anos para atuar no átrio da escola. Beatriz interpretou “I Didn’t Mean It”, de Aurea, e conquistou o primeiro lugar numa competição que contou com dezenas de participantes.

Entre os momentos que destaca está também a participação no concurso “Mostra o que Vales”, promovido pela Câmara Municipal da Guarda. A edição decorreu no Centro Comercial La Vie e a artista apresentou “Shallow”, de Lady Gaga, na primeira fase, e “I Will Always Love You” na final. A atuação valeu-lhe a vitória e um prémio monetário de 700 euros.
Entre tantas atuações, tem conseguido partilhar palco com alguns dos maiores nomes nacionais, entre talentos e ídolos de criança. Numa das situações, graças às redes sociais. A publicação de um vídeo a cantar “Para os Braços da Minha Mãe” começou a ganhar tração e chegou mesmo ao músico portuense.
“Imensa gente começou a partilhar o vídeo e a identificar o Pedro. Mais tarde, o manager dele ligou-me e foi aí que soube que ia subir ao palco”, recorda a artista sobre o espetáculo de fevereiro, em Pinhel. Assim que chegou o momento da atuação, não conteve as emoções: “Chorei do início ao fim.” Em 2021, Beatriz atuou também em Pinhel com Júlio Resende e com apenas 12 anos, tinha já subido ao palco para interpretar “Preciso de Ti” ao lado de Rita Guerra.
Longe dos holofotes, Beatriz trabalha como farmacêutica na Farmácia da Sé, na Guarda, num percurso que é semelhante ao da mãe, que também seguiu a mesma profissão. “A farmácia é um espaço de confiança e apoio, onde os profissionais acompanham as pessoas nos momentos mais felizes, mas também nos mais difíceis”, explica.
Conciliar a profissão com a música nem sempre é fácil e exige organização e flexibilidade. “Felizmente, a equipa da Farmácia da Sé compreende a importância da música na minha vida e procura ajustar horários sempre que surgem compromissos artísticos”, revela.
Atualmente, Beatriz divide a atividade musical entre dois projetos distintos. Os Amor Vitae nasceram no final de 2019, banda que criou com o irmão de 23 anos, Carlos Cardoso, e com o amigo Toni Mateus, de 27. O que começou de forma espontânea transformou-se num grupo que tem marcado presença habitual em casamentos, batizados, feiras e saraus.

Já os N’Roll On Night representam uma faceta completamente diferente. A banda de rock surgiu de um sonho alimentado durante vários anos e ganhou forma graças ao entusiasmo de um grupo de amigos: Filipe Costa, de 32 anos; Jorge Vaz, de 27; Ângelo Marques, de 45; Carlos Cardoso, de 23, e a própria Beatriz.
Porquê o rock? “É uma forma de expressão associada à liberdade, à autenticidade e à capacidade de questionar convenções”, afirma. É um género que “atravessa gerações porque consegue transformar inconformismo em arte e dar voz a quem tem receio de expressar aquilo que pensa”. Por isso, acredita que faz falta mais música livre e sem filtros no panorama musical português.
Apesar das diferenças entre os dois projetos, Beatriz considera que ambos ocupam lugares fundamentais na sua vida artística. Enquanto os Amor Vitae lhe permitem criar ambientes mais próximos e emotivos, os N’Roll On Night oferecem-lhe um espaço de maior irreverência e liberdade criativa. “Juntos, são o equilíbrio ideal entre responsabilidade e expressão artística.”
A ligação criada com o público é, para si, uma das dimensões mais especiais da música. “Ver o público cantar, bater palmas ou dançar é algo que considero difícil de descrever. São nesses momentos que as canções deixam de pertencer apenas aos músicos e passam a integrar a vida de quem as escuta.”
Curiosamente, encontra semelhanças entre essa experiência e o trabalho diário na farmácia. Se em palco é ela quem canta e é ouvida, ao balcão acontece precisamente o contrário. “É nessa capacidade de ouvir, compreender e ajudar que encontro uma ligação entre as duas vocações que marcam a minha vida.”
O futuro, antecipa, passa por continuar a investir nos projetos atuais, aumentar a visibilidade e, em breve, apostar na produção de temas originais, à medida que vai tentando aperfeiçoar a técnica vocal, ganhar mais experiência de palco e aprofundar conhecimentos na área farmacêutica.
Carregue na galeria pra conhecer a artista e as bandas.








