Apesar de ter crescido a ouvir e a inspirar-se em nomes como Rihanna, Amy Winehouse e Adele, Maria Martins acabou por seguir um caminho bem diferente daquele que inicialmente imaginava: o canto lírico. Após passagens por Inglaterra e muita dedicação à música, a jovem guardense acaba de lançar o novo single, “Void”, enquanto divide os dias entre a carreira artística e as aulas de canto e piano.
Aos 15 anos, começou a estudar música e, numa altura em que as opções no interior eram ainda poucas, encontrou na Covilhã uma escola profissional onde podia estudar piano e canto lírico. “Gostava e amava a música independentemente de tudo”, conta a guardense, hoje com 26 anos. Embora as suas referências estivessem muito mais próximas da música pop, o canto lírico era a única possibilidade que tinha. “Foi já muito tarde para entrar no percurso tradicional do conservatório, sobretudo porque, na altura, no interior, as opções disponíveis eram poucas”, recorda.
Aos 19 anos, depois de três anos de formação, decidiu procurar fora aquilo que sentia faltar em Portugal. Partiu para Inglaterra, “um País onde as oportunidades na música são imensas.” Começou por fazer uma licenciatura e, posteriormente, um mestrado. Passou cerca de cinco anos no país. “Esta experiência permitiu-me desenvolver competências não só como cantora, mas também enquanto artista independente, com contacto com gravação, bandas, concertos e networking.”
Foi em Inglaterra, num pequeno quarto de uma residência de estudantes, que nasceu “Void”, o novo single. A música surgiu quase de forma espontânea, depois de o músico e amigo Callum Preville lhe mostrar um instrumental que despertou a sua criatividade. O tema fala sobre saúde mental a partir de experiências pessoais da artista e de situações que viu em pessoas próximas. “A música fala sobre a procura de identidade, dificuldades e pela sensação de estar perdido, até chegar à cura, ao amor-próprio e a uma visão mais positiva da vida”, conta.
O lançamento contou com a colaboração de amigos, numa produção feita sem grandes recursos, mas com muita vontade de criar. Após a estreia, a 9 de agosto deste ano, Airam, nome artístico da jovem, recebeu testemunhos de pessoas que se identificaram com a mensagem da sua música. Foi uma reação que a deixou particularmente feliz. Especialmente importante tem sido a receção na Guarda, onde está a maioria dos seus ouvintes, algo que a artista encara com orgulho: “Num mercado onde diariamente surgem inúmeros novos temas, ter a minha voz presente na minha cidade é um orgulho. Com este trabalho quero mostrar que também é possível fazer música a partir do interior.”

Aos 26 anos, Maria é cantora, compositora, artista independente e professora de canto e piano na Guarda. O nome artístico surgiu como um reflexo do seu próprio nome: Maria ao contrário. “A ideia não é apenas estética. O objetivo é que as minhas músicas funcionem como um espelho para quem as ouve, permitindo que cada pessoa encontre nelas uma parte da sua própria história”, revela.
O regresso à Guarda aconteceu no final de dezembro de 2025. Depois de construir uma vida profissional em Inglaterra, onde tinha o seu próprio negócio ligado ao canto e ao piano, decidiu regressar por sentir falta da família, da qualidade de vida e da ligação à sua cidade e ao seu país. “Foi uma decisão arriscada, sem um plano profissional totalmente garantido, mas o pensamento foi: ‘Vou voltar e há-de correr bem’.” Agora, está a reconstruir a carreira em Portugal e a adaptar-se a uma realidade profissional diferente.
Na Guarda, mantém a atividade como professora de canto e piano no Centro Cultural da Guarda e prepara também novos projetos ligados ao ensino. Dá aulas a alunos de diferentes idades, dos quatro aos 72, e acredita que a sua experiência internacional pode ser uma mais-valia para quem procura formação musical no interior. Além do ensino, continua a trabalhar na sua própria música, embora reconheça que conciliar a vida pessoal, os alunos e a criação artística exige “muita consistência e muita disciplina”.
Antes de “Void”, a artista já tinha lançado “My Fate”, além de dois temas que acabou por retirar das plataformas por questões relacionadas com direitos de autor e com o desconhecimento dos procedimentos legais da indústria musical. A intenção é, contudo, voltar a disponibilizá-los. Por agora, “My Fate” e “Void” representam os seus dois lançamentos principais, enquanto deixa a promessa de que há “mais coisas a caminho”.
A profissão e o percurso internacional dão-lhe também uma visão particular sobre a música no interior. Maria considera que Portugal, especialmente as regiões do interior, ainda oferece poucas opções para quem pretende seguir música. Foi precisamente essa falta de alternativas que a levou inicialmente para o canto lírico e, mais tarde, para Inglaterra. Ainda assim, não vê o futuro da música na Guarda de forma negativa. Pelo contrário, mostra-se otimista com o crescimento da cultura e com a possibilidade de mais jovens encontrarem espaço para criar. “Acho que a evolução da oferta cultural e das plataformas digitais pode permitir que artistas da Guarda cheguem a públicos cada vez maiores”, enaltece.








