Aos 10 anos, Diogo Andrade fez um acordo com o pai que acabaria por definir o resto da sua vida. Se aprendesse a tocar guitarra, recebia uma PlayStation. A consola chegou, mas o prémio acabou por ser outro. Mais de duas décadas depois, o guardense já atuou em países como Espanha, Itália, Bélgica, Alemanha e Países Baixos e construiu uma carreira dedicada à guitarra clássica. Entre todas as atuações, há uma que guarda de forma especial, o concerto na cerimónia do 44.º aniversário da Universidade de Aveiro, perante o antigo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. “Não é todos os dias que se toca para o Presidente da República”, recorda.
Foi em 2000, na Escola de Música da Sociedade Filarmónica Bendadense, que deu os primeiros passos. Um ano depois entrou para a classe de Coro no Conservatório de Música de São José da Guarda e, mais tarde, frequentou durante três anos a classe de Piano.
A guitarra clássica entrou definitivamente na sua vida em 2005, quando começou a estudar com o professor Hugo Simões. Diogo não tem dúvidas de que foi um dos momentos mais importantes do seu percurso. “O professor transmitiu-me, não apenas conhecimentos técnicos e artísticos, mas também valores como a disciplina, a dedicação e a exigência, que continuam a orientar o meu percurso”, revela. Foi também nessa altura que percebeu que queria fazer da música a sua profissão.
A vontade de aprender mais levou-o até aos Países Baixos. Em 2013 entrou no Conservatorium Maastricht para estudar guitarra clássica. “Escolhi esta instituição pela oportunidade de estudar com Carlo Marchione, um dos mais prestigiados guitarristas e pedagogos da guitarra clássica”, conta.
Passou quatro anos fora de Portugal, uma experiência que lhe trouxe muito mais do que formação musical. “Viver no estrangeiro permitiu-me contactar diariamente com estudantes de diferentes nacionalidades, desenvolver maior autonomia, melhorar significativamente o inglês e alargar horizontes culturais.”
Pelo caminho participou em várias masterclasses e trabalhou com alguns dos nomes mais respeitados da guitarra clássica, dos quais destaca Carlo Marchione, Pedro Rodrigues e Hugo Simões como as pessoas que mais marcaram a sua evolução artística e pessoal. Atualmente dedica-se sobretudo à guitarra clássica a solo e em música de câmara.
Apesar de já ter tocado em vários países, a ligação a Bendada manteve-se intacta. Continua ligado à Sociedade Filarmónica Bendadense há mais de 25 anos, onde toca trompete na banda e assume a percussão sempre que é preciso. Este ano aceitou também o desafio de substituir temporariamente a maestrina, uma experiência que descreve como “particularmente interessante para um guitarrista.” Sempre que pode participa nas atividades da banda, nas festas da aldeia e aproveita para visitar familiares e amigos.
Também faz parte do Bendada International Music Festival desde a primeira edição, em julho de 2016, como professor de guitarra.
Para Diogo, o festival tornou-se muito mais do que um encontro de músicos. É um projeto de enorme qualidade artística e humana, “capaz de reunir professores e alunos de vários países num ambiente de aprendizagem, partilha e convívio.” Na sua opinião, colocou a Bendada no mapa internacional, ajudou a dinamizar a economia local e mostrou que também é possível criar projetos culturais de excelência no interior do País.
É precisamente essa mistura de culturas que mais valoriza. Além das aulas e dos concertos, os participantes conhecem novas realidades, aprendem uns com os outros e criam amizades que muitas vezes continuam depois do festival. Ao mesmo tempo, a população da Bendada tem oportunidade de contactar com pessoas vindas de diferentes partes do mundo.
Cresceu numa família profundamente ligada à Sociedade Filarmónica Bendadense. O pai foi maestro da banda durante cerca de 40 anos e o avô teve um papel determinante na continuidade da instituição. Ambos dedicaram mais de meio século à filarmónica. “Crescer rodeado de ensaios e concertos fez com que a música se tornasse uma presença natural no meu dia a dia e que, mais tarde, encontrasse na guitarra o instrumento que viria a definir a minha carreira.” Quando fala dos momentos em palco, refere ainda o irmão, Duarte, violinista, como o músico com quem mais gosta de tocar em duo.
Embora tenha vivido e estudado grande parte da vida na Guarda, todos os fins de semana e férias eram passados na Bendada, sempre ligado à Sociedade Filarmónica Bendadense. Fundada em 1870, é uma das filarmónicas mais antigas do País e continua a ter um significado especial para o músico, “tanto pelo valor histórico como pelo papel que desempenhou na minha formação pessoal e artística”, realça.
Ao mesmo tempo, reconhece que hoje existem mais oportunidades para estudar, participar em festivais, concursos e masterclasses, tanto em Portugal como no estrangeiro. Ainda assim, acredita que “o sucesso depende sobretudo da dedicação, da disciplina e da persistência. Com muito trabalho e determinação, é possível concretizar qualquer sonho.”








