cultura
ROCKWATTLET'S ROCK

cultura

O talentoso produtor da Guarda que correu o mundo e voltou para mudar vidas com a música

Depois de 13 anos entre Madrid, Londres e o continente americano, Luís Fidalgo regressou para criar projetos que promovem inclusão e dão voz a jovens vulneráveis.

Um convite para ser padrinho de casamento numa cerimónia no estabelecimento prisional da Guarda foi algo que não esperava, mas é hoje um dos muitos momentos que Luís Fidalgo, de 38 anos, recorda como fruto dos seus projetos musicais virados para a inclusão social. Esse convite dá também origem a um dos temas de “Interior Sonoro”, projeto que junta música, teatro, escrita, fotografia e expressão corporal.

O disco, que será apresentado a 17 de abril no Café Concerto no Teatro Municipal da Guarda, é uma iniciativa que conta com a participação de mais de 60 crianças e jovens de comunidades vulneráveis, da Cooperativa para a Educação e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados da Guarda e da Associação PALOP. Além do vinil, o projeto inclui uma série com três episódios.

Foi entre projetos que o produtor musical da Guarda conheceu a jovem reclusa, que haveria de lhe endereçar o convite para ser seu padrinho de casamento. A cerimónia decorreu em abril de 2025 no estabelecimento prisional da Guarda, onde casou com um homem de etnia cigana, também recluso, mas no estabelecimento de Coimbra. Um romance por correspondência que inspirou a reclusa a escrever uma música sobre a sua comunidade.

“As mulheres ciganas dentro da prisão sentem-se mais livres do que fora, e esta música é uma reflexão profunda sobre liberdade, identidade e os espaços onde elas encontram autenticidade”, explica o artista que deixou uma carreira internacional para regressar e trabalhar na sua cidade natal. “Senti que faltavam estes tipo de projetos na Guarda. Algo que ligasse a integração à música”, revela.

A escolha das comunidades foi feita consoante o objetivo do projeto: ajudar as comunidades mais vulneráveis. Partiu “sem grandes expectativas” embora admita que tinha esperança no resultado. “Sabia que poderia funcionar porque as pessoas iam ser ouvidas e não julgadas”, nota. “Os resultados foram positivos e isso vê-se com os projetos já cá fora.”

Entre crianças oriundas de contextos familiares complexos, imigrantes, minorias e reclusos, foi com estes últimos que sentiu que ultrapassou mais obstáculos. “Muita gente achava que trabalhar com reclusos e ciganos seria uma tarefa difícil”, recorda. Luís sabia que isso era perfeitamente possível. “Cresci num bairro da Guarda, nas Lameirinhas, e sempre convivi com a comunidade cigana e com essa realidade. Era dela que vinham grande parte dos meus amigos.”

Foram esses projetos que em 2018 o fizeram regressar à cidade, também em busca de melhor qualidade de vida. Pelo menos melhor do que aquela que encontrou na Europa e no continente americano.

O produtor e compositor português, cuja trajetória artística se distingue pela fusão inovadora entre a formação clássica e a pela reintegração, através da batida do hip hop, de crianças e jovens vulneráveis, trabalhou fora do País durante 13 anos, mas a paixão pela música nasceu precisamente na Guarda, onde cresceu ao lado da mãe e do pai, profundos conhecedores e apaixonados.

A mãe, médica de profissão, sempre tocou piano, inclusive considerou uma carreira como pianista profissional. O pai, por sua vez, foi diretor da Rádio Altitude nos anos 80. Luís recorda-se de visitar o local de trabalho do pai e de se sentir fascinado pelos vinis expostos nas paredes. Aos cinco anos entrou no Conservatório da Guarda para estudar educação musical clássica e piano clássico, onde esteve até aos 11, e enquanto aperfeiçoava as técnicas que aprendia, começou a escrever poemas já com a batida característica do hip hop.

Luís Fidalgo com quatro anos nos estúdios da Rádio Altitude.

Em 2003 foi um dos fundadores do primeiro coletivo de hip-hop da Guarda, os G-Ward. Este projeto representava um movimento de afirmação cultural e que identificava uma região que “precisava de plataformas para expressão criativa juvenil”. 

O talento e ambição de Luís obrigou-o a deixar a Beira e em 2007 mudou-se para Madrid para estudar Engenharia de Som no SAE Institute, um período que, segundo o artista, “foi transformador e marcou o seu encontro profundo com a música e cultura jamaicana.” Mas não ficou por aí. Viajou e viveu em Vancouver, em Amesterdão, no México e em Londres, a última estadia e a mais longa, onde ficou durante oito anos e consolidou a sua carreira como produtor e compositor de referência.

Durante esse período, fez várias publicações digitais em editoras como Monkey Dub, Mais Baixo, Dub Sundaes e Dank ‘N’ Dirty Dubz. Sobre a sua música e o seu estilo, diz que “equilibra a intensidade rítmica com profundidade sonora imersiva” e que “transita fluidamente entre o dub, bass, broken beat e leftfield”.

Foi com toda essa bagagem que ao fim de 13 anos, voltou, para imediatamente criar o projeto “Beat na Montanha”, que pretende, através da música e da escrita criativa, promover a inclusão de jovens dos seis aos 16 anos, muitos deles imigrantes. Uma realidade com que se deparou por altura do regresso ao concelho. “Pensei que através da música, poderia ser mais fácil fazer a integração”, explica. “Estes projetos diferenciadores eram e são extremamente necessários, porque neles todos estão em pé de igualdade. É um lugar onde todos são ouvidos e todos podem mostrar quem são, sem medos.” 

Este que é apenas um dos vários projetos de B.Riddim vai, atualmente, na terceira edição. A primeira, lançada em 2023, envolveu crianças e jovens do Centro Escolar de Gonçalo e da Aldeia S.O.S. da cidade. A segunda, projeto que envolveu reclusos e reclusas do Estabelecimento Prisional da Guarda e Mondego, foi desenvolvido durante meio ano com foco no hip-hop e que contou com a participação de André Neves (Maze), membro dos Dealema. O resultado final foi um espetáculo que subiu ao palco do Grande Auditório do Teatro Municipal da Guarda em setembro de 2024.

Devido ao sucesso obtido, a equipa do “Beat na Montanha” já está a preparar a versão 3.0. Inserido no Plano Nacional das Artes da Direção-Geral da Educação, esta edição contou com a participação das Escolas Secundária da Sé e Carolina Beatriz Ângelo. A apresentação do resultado final foi, uma vez mais, no Grande Auditório do TMG, em junho de 2025. E há no YouTube três documentários disponíveis sobre cada uma das edições.

Foi sobre esta iniciativa que Luís imaginou mais um novo caminho, o “Interior Sonoro”, que descreve como “uma inovação do ‘Beat na Montanha'” que, além da música junta teatro e interpretação. Este projeto está a cargo do artista guardense, novamente com a colaboração de Maze na escrita terapêutica, Joana Carvalho no teatro, Maria Figueiredo na expressão corporal e yoga, Vanessa Rei no mindfulness e terapia, Miguel Silva na fotografia analógica, e Kei no hip-hop e performance vocal.

Este projeto, que visa promover a inclusão social e o desenvolvimento de processos criativos, conta com o apoio do Município da Guarda, bem como do Teatro Municipal da cidade. O resultado do trabalho que começou no final de 2025 com sessões semanais junto dos jovens, será apresentado num espetáculo final no TMG, a 4 de julho, e num álbum multimédia original, com músicas, fotografias e textos que refletem a transformação vivida por cada participante e formador ao longo desta experiência.

ARTIGOS RECOMENDADOS