Aos 8 anos, fez a pergunta que todos os miúdos fazem: “Pai, posso dar uma volta na mota?”. O que não esperava era que a resposta fosse afirmativa. Rui Santos empoleirou-se, arrancou, mas deixou o motor desligar e a pesada mota caiu-lhe em cima da perna. “Apanhei um bocado de medo às motas e fiquei um bocado traumatizado”, conta o guardense de 35 anos.
Este podia ter sido o momento em que decidia nunca mais se aproximar de uma motorizada, mas a verdade é que aconteceu precisamente o contrário e acabaria por se tornar num piloto de stunt riding. A competição faz parte da vida de Rui. Em 2025, participou no Campeonato Ibérico, onde conseguiu chegar ao segundo lugar, mas essa não foi a sua primeira participação na prova. Estreou-se em 2018, quando terminou em oitavo lugar. No ano seguinte ficou em sétimo e, em 2020, chegou ao sexto.
Este ano, perante 22 participantes e uma concorrência cada vez mais internacional, terminou em 13.º lugar. Em fevereiro, rumou até à Florida, nos Estados Unidos, onde participou no maior evento de acrobacias de motas do mundo.
Na garagem guarda sete motas que usa nos espetáculos de stunt riding. Rui também participa em competições internacionais e soma mais de 100 atuações. Durante a semana, trabalha a tempo inteiro numa fábrica e dedica os tempos livres à preparação das motas, às viagens pelo País e aos treinos de manobras, que podem durar horas.
A paixão pelas acrobacias começou, no entanto, em cima de uma bicicleta. Aos cinco anos, passava os dias a pedalar, mas andar normalmente não lhe chegava. Estava sempre a inventar tropelias, entre cavalinhos e slaloms. “Para mim, ver uma bicicleta andar normalmente não tinha graça”, recorda.
Entre 2007 e 2012, começou a participar em provas de saltos e, entretanto, as motas também lhe prenderam a atenção. “Comecei a fazer os primeiros cavalinhos de mota por volta dos 15 anos”, revela. Rui aprendeu praticamente sozinho. Sem instrutor, recorreu à Internet para perceber como arrancar e controlar a mota.
Aos 18 anos, tirou a carta e comprou primeiro uma mota menos potente, de 50 cc, antes de passar para uma 125. Transformar a brincadeira numa atividade mais séria, porém, exigia investimento e esse era “um luxo que ainda não podia ter”. Começou a trabalhar aos 20 anos, “ganhava pouco e nem todos os patrões eram certos nos pagamentos”. A situação mudou em 2013, quando entrou para a Coficab, empresa local dedicada ao fabrico e comercialização de fios e cabos elétricos.
Foi então que começou a conseguir juntar dinheiro e, em 2014, aos 23 anos, comprou finalmente a primeira mota grande, uma mota de pista que começou imediatamente a preparar. “Foi aí que começou a ficar tudo mais sério e, a partir daí, nunca mais parei.”
A coleção foi crescendo e hoje conta com sete motas. “Cada uma tem uma função específica: há uma para as acrobacias e para a técnica, outra para queimar pneu e uma terceira preparada para drift, com uma traseira mais comprida”, explica. Outra é especial por um motivo diferente: pertenceu ao pai e é precisamente a mota em que Rui começou a aprender quando era criança. Restaurou-a por completo e voltou a incluí-la nos espetáculos. “É uma mota antiga, tem a sua piada.” A mais pequena da coleção é uma pit bike e costuma ser também uma das maiores atrações entre os miúdos. “As crianças ficam sempre loucas com aquela motinha pequenina.”

Muito antes dos grandes espetáculos, Rui marcava presença em quase todas as concentrações de motas. Aparecia com a sua máquina e, como tantos outros, começava a fazer alguns cavalinhos. “Não havia cachê, contrato ou sequer público à minha espera.” Por vezes, aparecia a polícia e acabava com a brincadeira, mas foi assim que começou. Quando comprou a primeira mota grande, tudo mudou. “Já não podia simplesmente sair de casa e ir treinar, era preciso transportar a mota numa carrinha ou num reboque.”
Depois, as redes sociais começaram a ajudar a divulgar o que fazia. Rui passou a ser visto por outros pilotos e começou a receber convites para participar em espetáculos como secundário, muitas vezes ao lado de profissionais que seguia e admirava desde miúdo. O primeiro convite a sério surgiu na Guarda, através do Motoclube da cidade, que considera ter sido quem primeiro lhe deu uma oportunidade. Depois veio Pinhel e, pouco a pouco, começaram a surgir outros eventos.
O primeiro espetáculo profissional aconteceu em 2016. Desde então, já soma mais de 100 e atualmente faz cerca de 15 por ano. Quem o vê em cima da mota durante uma atuação dificilmente imagina o trabalho que existe antes de entrar em cena. “No verão, praticamente não há tempo livre.” Rui mantém o emprego a tempo inteiro e usa o resto da semana para preparar tudo o que precisa para o fim de semana seguinte. “Posso ter dois espetáculos no sábado, um à tarde e outro à noite, e outro no domingo. Antes disso, há pneus para preparar, peças para verificar e uma lista interminável de coisas que não podem falhar.”
Apesar de toda a preparação, nem sempre tudo corre como espera. No verão de 2025, preparava uma mota para um espetáculo em Setúbal quando uma peça se partiu. Encomendou outra na segunda-feira, mas só chegou na sexta-feira de manhã, precisamente no dia em que tinha o espetáculo à noite, em Setúbal.
Durante o inverno, quando há menos atuações, aproveita para fazer revisões completas, trocar óleos e filtros, reparar peças e preparar tudo para a temporada seguinte. “Às vezes, até mudo as cores e o visual das motas.” É também nessa altura que aproveita para ver os novos modelos. “Estou sempre à procura de novos brinquedos”, conta.








