A bordo de um tuk-tuk que serpenteava o trânsito, Ariana Fonseca deparou-se com uma cena digna de um filme de Wes Anderson. Ali no meio do caos, viu uma mulher a “fazer equilibrismo numa corda” enquanto “equilibrava vasos na cabeça”. São esses postais caóticos e curiosos que a viajante guardense procura nas suas viagens, que há seis anos relatava ao detalhe no seu blog “Diário de Bordo“, na esperança de que as suas experiências possam ajudar os outros a escolher um novo destino.
O projeto nasceu após uma viagem a um destino menos exótico, neste caso a São Miguel, nos Açores, em 2020. Um projeto que marcou o início desta missão de querer partilhar algo autêntico, num mundo onde tantas vezes o conteúdo turístico é superficial. A guardense de 33 anos deixou a cidade natal aos 18 anos, para estudar Gestão Estratégica de Destinos Turísticos pela Escola Superior de Hotelaria e Turismo, em Lisboa.
Atualmente, trabalha como Senior Account Executive no departamento de turismo da Newlink Spain, em Madrid, onde ainda vive, depois de ter também morado em Paris e Amesterdão. Mas é longe dos familiares ambientes europeus e ocidentais que gosta de estar, ela que já passou por mais de 25 países em quase todos os continentes.
Esta febre começou em 2014, quando embarcou para a cidade holandesa, para fazer Erasmus. Ao fim de seis meses, percebeu que era para aquilo que queria viver e inscreveu-se num mestrado em Turismo. Olhando para trás, percebe que o desejo de conhecer novos locais já a fascinava, entre memórias das idas a Paris para visitar os avós, tinha apenas quatro anos.
Hoje, explica que nada a deixa mais feliz do que aproveitar os ensinamentos de árabe que acumulou, para regatear os preços dos objetos que compra nos souks. Foi isso que aconteceu em Marraqueche, Marrocos, onde “todos ficaram admirados”. “Consigo sempre um desconto maior”, graceja.
O choque cultural acontece quase sempre, sobretudo nos países islâmicos. “O uso do niqab e da burca nos países islâmicos causa sempre algum impacto”, confessa, enquanto recorda as passagens pelo Egito e pelo Qatar, onde também teve que vestir uma abaya, túnica que cobre o corpo até aos pés, mas também um hijab, para esconder o cabelo. “Quando viajo para países árabes tenho o cuidado de não levar vestidos curtos e levo sempre uma écharpe para cobrir os ombros ou a cabeça”, nota.

E quando não são os costumes locais, é a comida que por vezes se pode tornar um desafio. “Na Tailândia, é difícil encontrar alguém a servir que fale inglês. Ler o menu é impossível e, portanto, acabamos a pedir e a comer o que os outros pedem”, explica. Entre petiscos de street food que ainda hoje não sabe o que eram, a verdade é que nunca adoeceu. “O segredo? Beber só água engarrafada e evitar comida muito picante”, nota. Esta última é mais fácil dita do que posta em prática, sobretudo na Tailândia.
São estas experiências que a ajudam a colecionar material para depois partilhar com os leitores e, sobretudo, com quem a conhece mais de perto. “Os meus amigos sempre me pediram conselhos e sugestões sobre os destinos que visitei ou cidades onde vivi”, explica sobre uma das motivações para criar o blogue.
Ela própria faz o mesmo e consulta outros amigos, com experiências novas, para definir o roteiro dos meses que se seguem. “Confio muito nas recomendações de amigos, mas opto sempre por destinos que tenham uma forte componente cultural,” explica.
Organizar estas viagens traz sempre desafios e exige uma organização bastante pormenorizada. “Primeiro, começo por gerir o tempo e definir prioridades,” revela. No que toca ao planeamento, as contas são sempre preparadas de antemão, embora possam sempre não coincidir com o que encontra no terreno. “As viagens na Europa, mesmo com voos mais acessíveis, saem mais caras por causa dos preços das refeições” mas, viajar para a Ásia, por exemplo, “tirando os voos, fica muito em conta”.
Ao longo destes cinco anos, o processo tem-se tornado cada vez mais fácil, e embora goste de viajar sozinha, prefere sempre viajar na companhia de amigas. “Neste momento, com mais experiência, já me convenci de que não vou conseguir visitar tudo o que gostaria e estou em paz com isso. Viajo com mais calma e imagino sempre que irei regressar para conhecer o que ficou fora do itinerário,” explica a guardense que, ainda assim, mantém na lista de destinos de sonho nomes como Brasil. Para este destino os planos já estão feitos: “Sonho passar, no mínimo, três meses a viajar por aquele país imenso.”
Apesar de o seu trabalho a levar muitas vezes em viagens, nada se compara ao roteiro planeado inteiramente por si, com total liberdade. Procura fazer sempre pelo menos “uma viagem por mês”, cuja duração depende, naturalmente, do destino em causa. “Cidades europeias faço em três a quatro dias, mas se for mais longe, nunca menos do que 12 a 15 dias”, explica.
Mas há destinos em que voltar é uma das suas regras fundamentais, como Cairo e Luxor, no Egipto. “Há sempre algo novo para descobrir”, assegura. Embora ainda não tenha a próxima viagem marcada, a agenda tem no topo Amesterdão e Nova Iorque.

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