Foi aos 11 anos, sentada numa sala de aula, que Helena Maia pegou, pela primeira vez, em linha e agulha. Aprendeu a bordar com a professora durante as aulas onde fez a sua primeira toalha bordada uma peça que, seis décadas depois, continua a ser uma memória viva do início da sua relação com a costura.
Na verdade, nessa altura já os tecidos faziam parte das brincadeiras de Helena. Com cerca de seis anos, criava pequenas peças de roupa para as bonecas das amigas, sem imaginar o caminho que tinha pela frente. “Estava longe de saber que esta ia ser a minha profissão para toda a vida”, conta a guardense de 70 anos que, apesar de reformada, continua agarrada à máquina de costura no atelier que mantém no centro da Guarda, onde mantém intacto o título de uma das costureiras mais procuradas da cidade.
Natural de Pinhel, estudou na Guarda e começou a trabalhar por conta própria aos 16 anos, com vários trabalhos nas Lameiras, uma freguesia do concelho de Pinhel. Aos 23 anos, abriu o primeiro atelier. “O trabalho foi crescendo até que decidi abrir o seu próprio espaço e deixar de ir de casa em casa”, recorda.
A primeira máquina de costura tinha chegado pouco antes, quando Helena tinha cerca de 15 ou 16 anos, embora em casa já estivesse habituada a vê-la trabalhar. A mãe tinha uma antiga máquina de pedal e era responsável por fazer a roupa das seis filhas. Helena terminou a formação em corte e frequentou depois um curso de bordados, altura em que os pais lhe compraram a máquina que viria a tornar-se o seu primeiro verdadeiro instrumento de trabalho.
Mais tarde chegaram outras e, com a abertura do atelier, também as máquinas industriais. A primeira, porém, acabou por seguir outro caminho quando Helena decidiu oferecê-la a uma sobrinha que também gostava de costurar. “Não sou muito apegada aos bens materiais”, explica.
Ao longo de mais de 50 anos, pelas mãos de Helena passaram vestidos de noiva, vestidos para bailes de finalistas e roupa para festas e ocasiões especiais. “Já perdi a conta aos vestidos que fiz mas há um trabalho que é dos mais especiais até hoje: um vestido de noiva que passou de mãe para filha”, conta.
Depois de tantos anos, basta-lhe olhar para alguns vestidos para reconhecer o próprio trabalho, mesmo à distância. Outras vezes, são as próprias peças que regressam ao atelier décadas depois, agora pelas mãos das filhas das clientes para quem foram feitas, à procura de alterações que lhes permitam voltar a ser usadas.
E há métodos que também resistiram ao passar do tempo. Helena continua a cortar os tecidos como aprendeu, sem recorrer a moldes. “Não uso moldes para cortar os tecidos. Continuo a recorrer à régua, à fita métrica e ao giz, como aprendi.”
O atelier onde trabalha atualmente abriu em 2007, na Zona Histórica da Guarda, depois de Helena ter passado pelo Centro Comercial de São Francisco. A mudança não a assustou; estava confiante de que o novo espaço teria o mesmo sucesso e de que as clientes continuariam a chegar até ela.
Hoje, porém, já trabalha a outro ritmo e também encontra pedidos diferentes. A confeção por medida, que durante muito tempo perdeu espaço para a roupa produzida em série, começa novamente a despertar interesse, enquanto os arranjos continuam a ocupar parte dos dias de Helena, incluindo em peças de marcas caras que chegam ao atelier sem o acabamento que considera adequado. “A máquina continua a trabalhar, mas agora ao ritmo de quem já não precisa de fazer diretas para cumprir encomendas.”
Se há algo que a preocupa, é o que acontecerá à profissão quando a sua geração deixar as máquinas. Helena encontra cada vez menos pessoas interessadas em aprender costura e lamenta que muitos dos que trabalham na área façam as peças “a despachar”, sem o cuidado que considera essencial. A filha tem muito orgulho no trabalho da mãe, mas não herdou o mesmo gosto pela costura, algo que Helena aceita sem dramas: “Cada pessoa tem os seus gostos.”







