Quando Fernando, de 75 anos, pediu a Manuel Afonso que lhe fizesse uma crista verde na cabeça, o barbeiro ambulante estranhou, mas cumpriu. Acontece que o pedido não foi propriamente voluntário: era o resultado de uma aposta perdida com os amigos e vizinhos de Benespera. A cor tinha outra explicação fácil, já que o guardense era um conhecido e fervoroso adepto do Sporting.
Esta é apenas uma de muitas histórias que o barbeiro de 53 anos guarda dos últimos seis anos de atividade, ao volante da barbearia móvel que criou em 2019. É a bordo dela que percorre o distrito, a cortar barba e cabelo aos habitantes das aldeias mais remotas.
A ideia nasceu de uma necessidade própria. Natural da Covilhã, sofreu com a falta de barbeiros nas redondezas. Aprendeu a cortar o seu próprio cabelo, até que, depois de 25 anos a trabalhar em cargos de chefia e direção no setor dos hipermercados, sentiu que era tempo de mudar de rumo e usar as recém adquiridas aptidões.
Pôs mãos à obra, arranjou uma carrinha e personalizou-a de uma ponta à outra. Mobilou-a, instalou painéis solares, um circuito de água para lavagem, aquecimento, casa de banho, televisão e rádio. Chamou-lhe Afonso Mobile Barber Shop e tem feito sucesso nas localidades da Beira.
A transformação do veículo não foi fácil e demorou cerca de meio ano a completar. Hoje, a Unidade Móvel de Barbearia, conforme surge gravado nos lados da carrinha, percorre mais de 60 localidades nos concelhos da Covilhã, Fundão, Sabugal, Belmonte e Guarda, uma escolha feita em função, não só do número de habitantes, como da existência ou não de um barbeiro na aldeia e a distância de casa, um raio de 50 minutos de viagem.

Nesta carrinha providencia-se apenas um serviço: corte de cabelo, com o tamanho que quiser. Mas nem sempre os clientes querem pagar. Ao longo de seis anos, Manuel já viu (e fez) de tudo. Um, avisado do preço, disse que só pagaria 5€. Manuel assentiu, sentou-o na cadeira, fez o corte e despediu-se.
Assim que virou costas, surgiram as gargalhadas: Manuel tinha cortado apenas a parte da frente do cabelo, o que provocou a ira do cliente, que rapidamente percebeu que tudo não passava de uma brincadeira. Voltou à cadeira e o barbeiro concluiu o corte. No final, o valor que faltava acabou por ser pago.
Este é um modelo que funciona, sobretudo porque a concorrência mora muitas vezes a meia hora de distância dos clientes, que veem em Manuel uma solução muito mais prática. E nem pensa em arranjar uma barbearia fixa, ideia que ainda entreteve no arranque do projeto, até perceber que seria insustentável devido aos “custos elevados” e “poucas garantias de retorno”, bem como a “dificuldade em arranjar espaços adequados em aldeias pequenas”.
Entre as 60 aldeias, Benespera é a única do concelho da Guarda que faz parte do roteiro mensal da Afonso Mobile Barber Shop. O encontro está marcado para a primeira sexta-feira de cada mês, das nove às 13 horas. As marcações são, regra geral, feitas por telemóvel, mas Manuel nunca diz não a um cliente surpresa, isto caso haja vaga.


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