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Miles: quem é o artista da Guarda que criou um dos melhores murais do mundo

Aos 29 anos, Nuno Aparício já levou os seus trabalhos diversos países.

“Há crocodilos aqui?”, questionavam os banhistas que no verão de 2025 chegavam à praia fluvial de Alfaiates, no Sabugal. Era quase sempre essa a reação quando se deparavam com o mural de um crocodilo anamórfico tridimensional pintado com detalhe num dos muros do espaço. “Em Portugal não existem crocodilos, muito menos numa praia fluvial”, recorda o autor da obra, conhecido por Miles, nome artístico de Nuno Aparício, mais um dos muitos talentos made in Guarda.

Aos 29 anos, tem dado nas vistas pelos seus murais, mas houve um que se destacou em 2024, inaugurado em Alfaiates. Com nove metros de altura, o mural The Bull demorou três dias a fazer e acabou por dar nas vistas lá fora. Acabaria por ser um dos finalistas do Street Art Cities Award, onde conquistou o quinto lugar no ranking dos melhores desse ano.

Mas a sua última obra nasceu em Gouveias, uma freguesia de Pinhel, e foge um pouco ao seu estilo de murais de grandes dimensões que marcam as paisagens urbanas e rurais. É, no entanto, especial, admite. Trata-se de um projeto que surgiu de um pedido de uma família estrangeira que queria homenagear os avós, nascidos na terra. Aceitou afastar-se da sua linha habitual, também por se tratar de um tipo de homenagem que gostaria de ter feito aos seus próprios avós, e não conseguiu fazer.

A obra teve outro condão: fez Nuno recuar no tempo e recordar um momento marcante em miúdo. Aos 13 anos, usou uma parede de casa dos seus avós, para fazer o seu primeiro mural, onde escreveu o seu nome. Já começara a pintar antes, com seis anos, depois de ter recebido uma tela e um cavalete no Natal.

“Quando o meu avó morreu, uma tia fez um museu com algumas peças que ele esculpia em madeira. Eu nunca conheci bem o meu avó, mas quando visitava aquele espaço, sempre com alguma curiosidade, percebia quem ele era”, recorda sobre o outro artista na família. “O meu avô assinava sempre as suas peças com furinhos, e uma das que eu me lembro bem são uns talheres que ele fez para eu, em criança comer, e que estavam assinados por ele”, conta.

Nuno começou por pintar paisagens, mas acabou por se focar nos rostos. “Gosto, principalmente, de pintar rostos femininos que tragam alguma serenidade a quem olha para eles”, confessa. Esta preferência reflete-se claramente na sua última obra, onde a serenidade e a beleza feminina ganham destaque.

Com 29 anos, é já um dos nomes fortes da arte urbana no concelho, ele que estudou artes no secundário, antes de concluir uma licenciatura em Design, nas Caldas da Rainha. Acabaria por fazer um mestrado em design multimédia e um doutoramento, ambos na Covilhã.

Nuno descreve o seu processo criativo como “pouco saudável e meio obcecado”. “Sou capaz de trabalhar 14 horas seguidas”, justifica. “É quase um processo de meditação, acabo por não dar pelo tempo passar.”

Miles, o artista guardense que transforma paredes vazias em desenhos tridimensionais.

O estilo de Miles é marcado pela tridimensionalidade e pelas cores vibrantes que “tanto funcionam numa galeria como na rua”, reafirma. Tem murais por todo o lado, de Espanha, a França, também em Itália, onde concluiu mais uma obra no final de 2025.

A peça exposta em Pontedera, uma cidade italiana entre Florença e Pisa, é uma homenagem a Umberto Nobile, um dos grandes visionários por detrás do desenvolvimento dos primeiros dirigíveis do mundo. “Pontedera, aliás, foi uma verdadeira cidade-fábrica não apenas desses dirigíveis, mas também das icónicas Vespas, as motos que se tornaram símbolos do design italiano”, explica.

Em vez de criar um retrato realista de Umberto Nobile, o artista optou por representá-lo como uma criança sonhadora, “aquela que imaginava voar e perseguia esse sonho até alcançar os dirigíveis”. Essa escolha reflete um sonhador que transforma a sua visão em realidade. “Nobile também foi uma criança que sonhou grande e transformou seu sonho em inovação.” 

Carregue na galeria para conhecer alguns dos trabalhos do artista guardense.

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