Com apenas sete anos, entrou no Conservatório de Música da Guarda, com a ideia de aprender piano, mas quando deu por si, estava de acordeão na mão. O mesmo instrumento que definiu o seu percurso e que hoje continua a tocar.
O que começou por ser uma mera alternativa, acabou por se revelar uma surpresa. E Flávia Castro recorda ainda hoje o primeiro tema que aprendeu a tocar, o tema infantil “Balão do João”, que hoje, com 25, também ensina aos seus alunos na Covilhã, onde dá aulas. “Foi a primeira música que toquei e ensiná-la aos meus alunos é ainda mais marcante”, revela a acordeonista guardense, com um percurso recheado de prémios.
Flávia prepara-se agora para lançar uma nova composição original, “Liberdade”, que será adequadamente revelada a 25 de abril. Trata-se de uma composição espontânea, criada a partir de uma melodia que não conseguia retirar da cabeça. “Comecei a tocar para perceber se fazia sentido e ficou perfeita”, explica.
Conhecida na Guarda como Flávia Acordeonista, vem de uma família ligada à música. Foi ao ouvir o pai, que tocava em bailes nas festas das freguesias, que decidiu entrar no Conservatório de Música da Guarda. “Foi tudo graças ao meu pai”, recorda, lembrando também os momentos em que ele lhe ensinava piano.
Apesar de o pai tocar música tradicional, diferente do percurso erudito que seguiu, a influência foi determinante. A componente mais melancólica da sua música reflete também a sua personalidade. “Acho que é mesmo a pessoa que eu sou: sentimental e reservada.”
Cresceu a ouvir um pouco de tudo, mas tem bem assentes as suas referências. Adora Hermosa, o acordeonista e compositor espanhol com quem já trabalhou, e a peça “Revelation” de Franck Angelis, que influenciou a sua obra “Anima”, lançada em 2024. Destaca ainda os mestres Carisa Marcelino e Iñaki Alberdi, que lhe transmitiram a importância da expressividade em palco. A estas juntam-se nomes como Astor Piazzolla e Richard Galliano, pela versatilidade das suas obras.
Nascida na Guarda, deixou o concelho (e os pais) muito cedo, apenas com 11 anos, tudo para continuar o seu objetivo de estudar música. Mudou-se para a Covilhã e apesar dos meros 25 minutos de viagem, ficou alojada numa casa para estudantes. Frequentou a Escola Profissional de Artes da Covilhã, onde concluiu o ensino secundário sob orientação de Carisa Marcelino, que considera “essencial” no seu percurso, não só pelo ensino técnico, mas também pelo incentivo à participação em concursos. “A preparação era intensiva. Passava o dia a estudar e a minha vida era estar com o instrumento ao colo.”
Esse trabalho refletiu-se em vários prémios. Nos concursos nacionais de acordeão e guitarra portuguesa, conquistou o 1.º lugar em Santarém, em 2019, o 2.º lugar em 2018 e o 3.º prémio em 2016. No FoleFest, em Lisboa, obteve o 1.º lugar e o prémio de melhor intérprete em 2016, o 2.º prémio em música de câmara em 2018 e o 3.º lugar na mesma categoria em 2017. A estes títulos, acrescentou ainda o 1.º prémio no Concurso Interno da EPABI, em 2018.
Habituou-se a viver longe de casa e aos 18 anos, continuou o percurso, desta vez ainda mais afastada. Viajou para San Sebastián, para estudar na Muskene, o Centro de Música do País Basco. Apesar de já adulta, a experiência não foi mais fácil. Recorda-se bem de um desses momentos, já de madrugada, enquanto esperava o autocarro que a levaria até à Guarda. O autocarro nunca chegou a passar. Sozinha, procurou uma solução e um motorista no local explicou-lhe, entre sorrisos, que essa situação era habitual. Flávia, desesperada, ponderou não voltar a viajar de madrugada. Acabou por concluir o curso em 2022, na turma do professor e acordeonista Iñaki Alberdi. Este ano, terminou o mestrado em ensino de música na Escola Superior de Artes Aplicadas (ESART), em Castelo Branco.
Hoje, dedica-se sobretudo ao ensino, na Covilhã. A escolha foi consciente. “Não resultou de falta de sucesso profissional, mas de uma vontade imensa em ensinar o que também a mim me ensinaram.” Dá aulas a alunos entre os quatro e os 18 anos e destaca o orgulho em acompanhar a evolução de cada um. Paralelamente, continua a compor e a participar em eventos na cidade, apesar de ter decidido não fazer carreira profissional. Sempre sonhou ser professora.
Reconhece que viver da música na Guarda não é um percurso fácil e por isso adotou uma abordagem mais aberta. “Todos os estilos de música são importantes para mostrar o nosso trabalho. Não devemos só focar naquilo que estudamos. Devemos abrir a mente a outros caminhos.”
Essa flexibilidade trouxe mais oportunidades e estabilidade. Atualmente, não tem concertos marcados para este ano, uma decisão deliberada para se dedicar à família, numa fase em que se encontra grávida. Ainda assim, integrou, recentemente o Trio Allegro, com a flautista Márcia Cunha e o pianista Domenico Ricci e no grupo tradicional Trovas da Beira.
Apesar de nunca ter querido dedicar-se inteiramente a uma vida profissional dedicada só aos concertos, entre discos e espetáculos, continua a ser figura de destaque nas festas da Guarda, normalmente a convite do Museu da Guarda. “Herdei o gosto por estar em cima do palco do meu pai e, apesar de ser professora e ensinar miúdos, a sensação de estar a atuar sozinha é completamente diferente e especial por fazê-lo na cidade onde eu nasci”, assume.

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