Quando quatro mulheres com cerca de 75 anos apareceram acompanhadas pelas filhas para fazer uma tatuagem, seria fácil adivinhar quem se ia sentar primeiro na cadeira. Só que, desta vez, eram as mães que tinham decidido avançar, apesar da relutância das acompanhantes mais jovens. “As filhas vieram acompanhar, mas não concordavam nada”, recorda a tatuadora guardense Stefanie Ferreira.
Cada uma das quatro amigas optou por um desenho diferente, com significados pessoais, e uma delas decidiu tatuar algo relacionado com os netos. “Foram tatuagens simples”, conta a tatuadora de 38 anos, proprietária e fundadora do Doce Veneno, o novo estúdio de tatuagens aberto na cidade desde outubro de 2025.
Apesar de já trabalhar como tatuadora há 16 anos, passou grande parte desse percurso num salão de cabeleireiro, também na Guarda. “Senti que era o momento certo para abrir um espaço meu. Encontrei o lugar ideal e, passado um ou dois meses, estava de portas abertas”, recorda.
A ligação da guardense às tatuagens começou muito antes do Doce Veneno. Nasceu na Suíça e, aos 13 anos, veio para Portugal com os pais, diretamente para a Guarda. “Tínhamos família em Trancoso, mas optamos por ficar na cidade”, revela. Desde pequena que esteve ligada às artes e ao desenho. “O desenho para mim sempre foi tudo”, conta. O caminho profissional, contudo, levou-a primeiro para a estética; depois fez o curso no Porto, onde esteve dois anos e meio e onde começou a trabalhar na área.
Em 2009, ainda no Porto, uma colega de casa que também era tatuadora (além de professora) motivou-a a experimentar. “Foi ela que me despertou um bocado esse lado das tatuagens”, recorda. Stefanie queria algo mais criativo e próximo da paixão pelas artes e, poucos meses depois, fez uma formação em tatuagem e começou a exercer profissionalmente. “A primeira tatuagem que fiz foi no meu próprio corpo, uma frase no braço”, conta.
É também através das tatuagens que Stefanie procura contar histórias. O estilo com que mais se identifica é o fine line, ao qual junta o interesse pelo micro-realismo, e apesar de ter um estilo de eleição, não fecha a porta a novos desafios e gosta de experimentar técnicas diferentes, enquanto procura continuar a aprender através de formações. Uma delas permitiu-lhe descobrir uma técnica que combina preto e vermelho, ensinada por um professor russo. “Trabalhar com cor é um desafio”, explica. Stefanie tem também aprendido com Pedro Almeida, um tatuador de Viseu.

Para a tatuadora, cada trabalho tem uma responsabilidade particular porque está associado à história de alguém. O desafio passa por transformar essa história numa imagem que corresponda às expectativas de quem a escolheu. “Quero mesmo que a pessoa fique satisfeita e tentar representar algo que eles gostem.”
Essa vontade de experimentar também levou Stefanie a sair do espaço tradicional do estúdio e a fazer trabalhos em motoclubes, festas e casamentos. “Neste contexto, trabalho com tatuagens pequenas que possam ser feitas em poucos minutos. São eventos onde há muita gente e, há, inclusive, quem aproveite para tatuar comigo nestes dias porque a agenda no estúdio está sempre cheia.”
O projeto não vai ficar-se apenas pela tatuagem. O futuro do Doce Veneno passa também pela moda, um sonho antigo de Stefanie. Desde pequena que queria trabalhar em design de moda e, agora, pretende recuperar essa ambição através da criação de roupa associada à marca. Já começou a experimentar a personalização de peças, mas a intenção é criar algo mais estruturado: “A ideia é mesmo criar roupa.”
Stefanie não quis criar apenas um estúdio de tatuagens, mas um espaço que funcionasse também como uma espécie de galeria. Além do seu trabalho como tatuadora, o espaço tem lugar para a estética, com Ana Oliveira, e piercings, com Ana Gonçalves.
A própria decoração traduz essa identidade artística. “Eu sempre pintei e decidi levar essa paixão para as paredes do estúdio”, conta. Mistura pedaços de jornal, esponja, carvão e tinta para criar uma decoração com um lado industrial e muito pessoal. “O resultado pretende fazer com que quem entra no espaço não encontre apenas um local para fazer uma tatuagem, mas também um ambiente artístico.”







